A leitoinha que não queria morrer

Desde quando nasceu, aquela leitoinha irmãzinha de outros quinze leitões, clarinhos, nascidos no mês passado, se destacava dos demais por apresentar olhinhos de um azul muito parecido àquele que amanheceu no domingo passado.

Elazinha foi batizada pelo menininho filho do dono da porcada de Bernadete.

Era uma belezura a porquinha. Inteligente, sonhava um dia se tornar mãe de outros porquinhos como seus irmãozinhos.

Mal sabia ela o que lhe estava reservado.

Era véspera de ano novo. Chovia torrencialmente naquela rocinha escondida no meio de uma serra alta.

Uma lama grudenta dificultava a lida no campo. Era difícil sair de casa. A familia do Artuzinho, ali nascido, filho único de um casal obreiro, todos ajudavam na lida da pequena fazenda, amava os bichos, não fazia distinção se ruminavam ou corriam livres pelas pradarias.

Aquele meninozinho esperto, aos sete anos de idade, completos naquele dezembro, chuviscoso, estudava numa escolinha perto de onde morava.

Era um aluno aplicado. No futuro almejava estudar agronomia, ou zootecnia, por gostaria de continuar a lida no campo, passar os conhecimentos aprendidos na intenção de modernizar a fazendola, fazê-la espichar, ser dono de uma gleba de terras que iriam se estender além de onde a vista alcança.

No dia que nasceu Bernadete Artuzinho estava presente.

Ali, naquele chiqueiro feito com todo o capricho, nunca faltou asseio ou boa alimentação à porcada, Bernadete foi a derradeira a apontar a cabecinha do lado de fora do útero da mãe.

Nasceu num mês de outubro. A dois meses do dia de Natal.

Era uma glutona que não tinha paciência em esperar a sua vez a fim de sugar o leite quentinho, de rico sabor, que emergia das tetas da mãe.

Os quinze porquinhos se espremiam grunhentos, esfomeados que eram. E engordavam a olhos vestidos.

Bernadete, espaçosa, ocupava o lugar de três irmãos. Era a última a deixar as tetas. E depois tirava uma sonequinha que durava quase três horas inteiras.

Eis que chegou dezembro. Avizinhava-se o Natal.

Por ali apareceu um velho amigo da familia. Era um sitiante de nome Seu Mané.

Ele apareceu na intenção de encomendar uma leitoinha novinha, na intenção de assar no dia de Natal.

Quando deitou os olhos na linda Bernadete, já pesando quase dez quilos de pura formosura, foi ela mesmo que decidiu encomendar.

Parece que a tal já adivinhava as intenções predatórias do vizinho Mané.

Bem que tentou fugir da raia. Escafedeu-se num ímpeto. Não mais mostrou a carinha lambuzada ainda do leite da mãe porca.

Duas semanas se passaram. Seria aquele o dia em que Seu Mané viria para pegar a encomenda.

Naquela noite escura, com a lua brilhando no alto, Bernadete resolveu dar um sumiço daquele lugar ameaçador.

Escondeu-se por detrás de uma bananeira que já deu cacho.

Era onde uma galinha fez seu ninho.

Assim que Seu Mané apareceu, na intenção de sacrificar a pobre porquinha, nada de ela aparecer.

Nunca mais se viu a tal Bernadete. Ela, fingindo-se de morta, acabou se transformando numa franguinha linda.

Dizem, nos arrabaldes, que foi a primeira e única vez que uma leitoa aprendeu a botar ovos.

Eu não acreditei. A principio.

Até que, um belo dia, em visita à familia do Artuzinho, já era doutor em porcos feito, vi, com estes olhos que imaginam coisas, uma linda galinha acompanhada de seus pintinhos amarelinhos.

Quando ela me viu escondeu-se na moita de bananeira. E olhou-me fundo nos olhos. Desejando-me um feliz Natal e um proveitoso ano novo.

Não pensem que esta história é mais um fruto da minha imaginação profícua em inventar causos e loisas da roça. Podem crer que não.

 

 

 

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