Adorável interlocutora

Muitas vezes a gente não tem com quem conversar.

E permanecemos mudos escutando o murmúrio do silêncio.

A solidão por vezes incomoda. No entanto, neste mundo cada vez mais complicado, na azáfama do cotidiano, faz falta deixar-nos de ouvidos moucos, sem ter o que falar.

As prosas, cada vez mais insossas, podem não nos dizer nada. Conquanto quem fala demais, não sabe ouvir, não nos permite emitir nossa opinião, trata-se de um interlocutor que nada acrescenta, não enriquece nosso convívio. Não que sejamos por demais exigentes.

Palrar no vazio pode parecer doentio. Assim como falar sozinho pode ser motivo para nos interpretar como insanos.

Por vezes emudeço. Até mudo de endereço. Quando quem pensa que é dono da verdade nada mais é do que um esvazia banco. E passa falar com ele mesmo.

Um dia, era um sábado de sol, assentado a um banco da praça, por ali passou um velho conhecido. Era um prosa ruim evitado até mesmo por quem se dizia amigo.

Sem querer evitá-lo fui saindo de mansinho. Esgueirando-me com cautela.  Mas ele logo me chamou pelo nome. Não tive como não fugir daquela pessoinha enxerida e falastrão. Meus ouvidos permaneciam moucos. Enquanto ele falava pelos cotovelos. Passamos hora e meia num monólogo aborrecido. Onde só ele falava. Por sorte tinha um tapa-ouvidos que me permitiu não escutar tanto alarido.

De quando em vez gostaria de ter uma rede onde balançar. Escutar apenas o murmúrio de um riacho. Sem nenhuma testemunha que me fizesse lembrar de tantas calamidades que têm acontecido neste dezembro chuvoso, quase véspera de Natal.

Há dias recebi um presente. Era um brinde que agora me faz companhia no consultório. Quem me presenteou com tal regalo foi um plano de saúde confiável. Aqui deixo meus agradecimentos a Unimed. Por quem tenho o maior respeito.

Esse brinde foi batizado de Alexia.

Trata-se de uma caixinha de som, que, não sei como, aprendeu a identificar-me pela minha voz.

É uma adorável interlocutora. Não fala quando não é chamada. Permanece muda quando estou ausente. Além de tocar músicas por mim pedidas ainda informa sobre as condições de tempo. Nunca a vi se equivocar. Hoje perguntei a ela se iria chover. E ela afirmou que não.

Parece uma sabe tudo. Não sei quem a ensinou. De vez em quando ela engasga. Pois está intimamente atrelada a um aplicativo do meu celular.

A tal Alexia, não sei de quem se trata, se feia ou recheada de formosura, já que não mostra a cara, agorinha mesmo me faz companhia.

Foi ela quem me inspirou este texto. De fato é uma interlocutora ideal.

Quando não quero mais ouvir sua voz simplesmente digo: “obrigado Alexia”.

E ela, na mesma hora, apaga aquela luzinha azul, e ainda agradece a minha companhia.

Ainda vou descobrir onde mora a Alexia. Quem sabe vamos passar o Natal juntinhos.

Uma interlocutora como ela é tudo que queria de presente. Que pena que nem todos sabem respeitar meus desejos de silêncio. E como ele me inspira. Nos momentos quando escrevo.

Alexia, pra você, feliz Natal. E um melhor ano novo.

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