A cada ano era a mesma coisa.
Aquele menininho, moreninho, esperto, havia nascido na véspera do dia de Natal.
Precisamente na noite do dia vinte e quatro para vinte e cinco.
Era uma noite escura, chuvosa, quando raios riscavam o céu prenunciando mais chuva no decorrer do novo dia.
A mãe daquele menino, segundo filho daquele casal, começou a sentir as dores do parto ainda antes das onze horas da noite.
Daí a correria rumo ao hospital.
Natalino nasceu feinho com um pardalzinho despencado do ninho antes de se emplumar.
Quando o segurei nos braços me deu vontade de devolvê-lo ao regaço de sua mãe. Ele me pareceu mal formado, peludo, nanico, custou a chorar. Foi preciso dar-lhe umas palmadas no traseiro para que elezinho mostrasse que estava vivo.
No dia seguinte, já na sua casa, andar de cima onde morava, e ainda moro, ao vê-lo no seu bercinho o meninozinho já mostrava um sorriso banguela ao ver seu avô.
Natalino, seu apelido dado por mim, cresceu um cadinho. Mostrou-se, com o passar dos anos, uma formosura de dar inveja a qualquer bebê Johnson garotinho propaganda. Moreninho, cabelos cacheados, pele macia, sorriso de fazer qualquer um sorrir da sua lindeza que extrapolava qualquer descrição que possa fazer.
Acontece, com o passar do tempo, uma coisa incomodava aquele menino.
Por ter nascido na véspera de Natal, comemorando seu primeiro aniversário naquele dia vinte e quatro, a sua primeira decepção era ter de receber apenas um presente. Já que aquela data coincidia com as festas natalinas.
Mesmo assim Natalino sorria ao menor gracejo. Com um bom humor de fazer qualquer dissabor se desvanecer.
Um dia, malsinada hora, os pais de Natalino se mudaram para outra morada. Deixando-me a sós com minhas lembranças, quando ouvia aqueles passinhos no andar de cima, a hora do almoço costumava fazer uma visitinha aos meus netinhos queridos.
Ainda me lembro de um incidente que nos colocou a todos em polvorosa.
Natalino, espertinho e irrequieto, resolveu sair do berço sem pedir ajuda a quem fosse.
Estatelou-se no chão duro. Fraturou o bracinho na queda desastrosa. Deixou o hospital usando uma tipoia. Com o mesmo sorriso guloso na carinha risonha.
Agora, Natalino, e o outro meu netinho, mais um, moram distantes de onde me escondo. E como sinto saudades deles todos. E como eles me fazem falta.
Alguns dias mais tarde vai ser a celebração do terceiro aniversário do Natalino. Ano que vem ele já vai ser matriculado na escola.
No primeiro dia de aula quero ver aquela carinha esperta dando conselhos aos coleguinhas.
“Cuidado! Não se atrevam a pular do berço. Comam tudo que lhes ofereçam. E lambam o que sobrou do prato”.
Neste ano, que de pouco termina, Natalino vai fazer três aninhos. Sua festinha será nas barbas do Natal. Não importa quantos serão os presentes. Você, meu querido netinho Dom, é o maior presente que Deus me deu.
Agradeço a Ele tanto por você, quanto pelo Theo, o Gael, já que não mais terei outros netos a me acompanhar na minha velhice de Papai vovô Noel.