Hoje, dia quinze de dezembro, amanheceu um dia cinzento. A chuva, no decorrer do dia, deve voltar a cair.
Não me sinto bem em dias como esse. Não só acinzenta-me a alma. Como também concorre para turvar-me os sentimentos.
Prefiro o clarume do sol. A azulice do céu me fascina. Bem sei que a chuva faz falta. Desde que seja em gotinhas miúdas, serenas, que não causem transtornos na vida de cada um de nós.
De tempos pra cá a chuva tem feito estragos. Felizmente, em nossa cidade, não tem sido tão envolvente que cause transtornos. Lavras de fato é uma cidade privilegiada. Ribeiros, correnteza que leve de roldão tudo que passa pela frente, por aqui não são vistas. Pelo menos nos tempos em que por aqui vivo.
Por detrás daquelas nuvens cinzentas deve despertar o chorume da chuva. Agorinha mesmo chove um bocadinho. São gotas fininhas, a tal chuva de molhar bobo.
Imagino, na roça, a alegria do homem do campo, que nesta hora, quase madrugada, deve estar feliz com a cinzentice que inunda os arredores. Já eu, dotado de rica sensibilidade, prefiro me deixar envolver em uma nesga de claridade, vendo o sol nascer.
Não me sinto confortável em dias como este. Por dentro abraça-me uma certa nostalgia. Ao acordar, ainda cedo, abro a janela. Dali percebo como o novo dia vai se comportar.
Já disse preferir os dias claros. A azulice do céu faz minhalma se alegrar.
Mas, já me comportei diferente. Já fui um menino travesso. Adorava, nos dias de chuva copiosa, ver despencar pela enxurrada barquinhos de papel. E eles desciam enxurrada abaixo. Pensava até encontrar um rio. Para depois desaguar no mar.
Naqueles tempos de antão nada me fazia entristecer. Talvez a razão fosse umazinha só. Meus pais ainda estavam por perto. Naquela mesma casa que agora se transformou num lote vazio.
Pena que o tempo passa. E a gente muda ao sabor dos anos.
Agora, nesta idade que me contempla, minha alma se tornou mais taciturna. Atribuo a culpa ao fato que agora estou ultrapassando os setenta. Em dois anos apenas.
E como gostaria de ser como nos anos de antigamente. Era só sorrisos. Uma criança como hoje são meus três netinhos.
Infelizmente não sou capaz de domesticar meus sentimentos. Maldita sensibilidade que me consome.
Sou refém de instantes de felicidade. Que se alternam com uma melancolia profunda.
Não me sinto bem em dias como este. A cinzentice do céu me incomoda.
Gostaria de ver o brilho do sol. Um lindo arco-íris se formar na linha do horizonte.
Mas, como não sou capaz de interferir nos ditames do tempo tento ir contra os contratempos. Remando contra a correnteza que tem alagado cidades inteiras.
E como gostaria de poder enxergar, por detrás da cinzentice do céu, de dias nublados, como esse, o retorno do sorriso do sol.
Infelizmente ainda não sou capaz, de, em dias quando o sol não se mostra, poder vislumbrar a volta do clarume do sol. Minha alma se acinzenta. E não posso impedi-la de mudar seu pensamento.