“Veice num é doença não”

De vez em quando me pergunto: “a partir de quando se fica velho”?

A dúvida me atormenta.

Idoso, diz a organização mundial de saúde, é quando o individuo ultrapassa os sessenta anos ou mais. No entanto essa regra varia segundo a legislação de cada país.

Aqui, depois de passados os cinquenta torna-se quase impossível conseguir emprego.  Ainda mais nestes tempos bicudos por que atravessamos. Onde o desemprego é tão aviltante como se fosse pecado passar da idade. Pecado sim é ter de continuar a trabalhar já que a nossa aposentadoria mal permite uma vida digna. Os míseros um mil e poucos reais, que percebem os aposentados, quantia irrisória que o governo nos paga, não nos satisfaz as mínimas necessidades. E se torna lugar comum ver velhos a catarem latinhas pelas ruas para completar o ganho. Isso deixando-se de fora os gastos com a alimentação, planos de saúde, se podem pagar, o aluguel sempre atrasado, a conta de luz e água, sob a ameaça de serem cortados, a conta do gás que subiu às alturas, o preço da gasolina que se tornou inviável, isso sem falar no deslocamento que se torna necessário, para chegar ao outro trabalho, e como dá trabalho viver depois de tantos anos de um mourejar continuo.

Ser velho, ou idoso, se torna cada vez mais dificultoso pelas bandas de cá.

E quando o velho adoece? Aí a macaca torce o rabo e coça a cabeça.

Quando não se tem um plano de saúde decente, e tem-se de recorrer ao SUS, aí que a gente assusta. Filas enormes nos esperam. E a tal cirurgia considerada eletiva tem de ser postergada. Até o final da vida. Quando já é tarde.

Agora, que já passei da idade, resta-me um consolo. Ainda não sinto que já dobrei a serra. Estou ainda no começo daquela encosta. Longe do final. No próximo Natal sou considerado o Papai Noel dos meus netinhos. Se deixo a barba crescer, e a barriga encobrir as minhas partes baixas, usar aquela fantasia vermelha e um gorro cobrindo a minha calva reluzente, só me basta aprender a dizer-oh oh! Aí não falta nada. A não ser descer pela chaminé. E não me entalar por aquela buraco escuro. Na véspera do dia vinte e quatro pra vinte e cinco.

Ser velho longe de ser viver num paraíso. De fato temos nossas regalias. Pagar meia nos cinemas. Andar de lotação graciosamente. Não esperar tanto nas filas. Pois dizem que temos preferências. Mas dispensamos reverências. O que gostamos é de respeito e não comiseração.

Ser velho nem sempre carecemos de muletas. Ou de usar fraldões.

Não somos sapatos velhos que uma vez usados se joga fora.  Não queremos ser ignorados pelos filhos. A quem demos tudo que nos pertencia. Ser velho não é apenas gozar de privilégios. Gostaríamos de voltar à ativa. Não ocupando o lugar de gente nova. E sim passando a nossa experiência aqueles que gostam de aprender.

Conheço um velho, que no alto dos seus muitos anos, não conto quantos, de nome Seu Benedito, que, segundo me consta, e reconto tal e qual me contaram, ainda trabalha de sol ao esconder da lua. Ele é pau pra toda obra. Não enverga e mal enxerga. Se dissesse, que um dia o encontrei, fazendo uma cerca enorme, no calor do meio dia, sem derramar um pingo de suor, e ali parei. Um cadiquinho. Na intenção de colocar a prosa em dia.

Era um sábado. Fazia tanto calor que as vacas se abanavam no ventilador do rabo.

Com ele palrei uma pá de minutos.

“Como vai tu? Ta tudo bem? E a saúde? Não tem precisado de médico? Bem sei que os preços, na cidade, estão pela hora da morte. Ainda bem que tu mora aqui. Onde as coisas remam ao sabor do vento. E sei que eles têm sido favoráveis, para um velho rijo, com os costados duros como os seus.”

Foi quando Seu Benedito me retrucou, com aquele ar de quem faz troça de todo aquele que passa, perdido, sem saber pronde vai.

“Ah!, quer saber? Não vou lá, nem cá. Fico aqui comigo. Sem saber se vou voltar. Caso vosmecê quiser saber o que acho. Não sonego a minha opinião. Sei que estou mais pra lá do que pra cá. Mas continuo a trabalhar. Nunca precisei de me internar. Prefiro morrer no sono. Sem pelo menos acordar. Se vosmecê quer mesmo saber, digo e não contradigo: Veice num é doença. Ainda não sinto um desejo enorme de ver a morte me levar”.

Vocês hão de concordar comigo. Ainda não estou pronto a descobrir o que se passa do outro lado da vida.

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