Este não foi um ano fácil para a familia do velho Chico.
A tal doença ainda não teve fim. Dois filhos foram sepultados vitimas da tal pandemia.
Salvou-se apenas um filho mais jovem. Por sorte ainda não sucumbiram o pai de familia e sua amada esposa.
Restou, daquela gente boa, moravam num palmo de chão que mal dava para medir em jardas e metros de distância, três personagens, dos quais fui informado pela boca de conhecidos, vizinhos de roça, nas cercanias do município de Ijaci.
O velho Chico nasceu naquele lugar desprovido de recursos. Para conseguir uma consulta médica precisava andar léguas de lonjura. Era preciso acordar cedo para chegar à cidade. Esperar a unidade de saúde abrir as portas. Muitos dormiam na fila imensa, que se formava ao despontar da lua.
Aquele ano, de dois mil e vinte e um, prestes a terminar, por sorte iria acabar em poucos dias.
E que ano foi aquele. Faltou chuva na hora que mais necessitavam. Choveu a encher ribeiros a partir de novembro.
Mesmo sujeito às vicissitudes do tempo o velho Chico não desanimava. Enfrentava galhardamente procelas de destemperos do tempo.
Eis que chegou dezembro. A rocinha de milho, plantada no começo da estação chuvosa, não foi adiante. Mesmo assim o velho Chico perseverou. Replantou de novo. Era estoico e resignado. Acreditava piamente que um dia pior fatalmente iria trazer outro melhor mais pra frente.
Assim ia levando a sua vidinha sem se desaminar. Num dia fazia sol. Noutro por certo a chuva iria voltar.
Dezembro assoprou os ares com seu hálito molhado. Choveu a escorrer água barrenta por detrás da casinha tosca onde a familia do velho Chico morava.
A vacada, de costelas a mostra, por fim engordava e a produção leiteira ia de bem a melhor.
Avizinhava-se o Natal. A esposa do velho Chico, uma senhora que ainda guardava traços de formosura por baixo daquela aparência sofrida, depois de tantas desventuras, arregaçou as mangas. Apesar de ser tempo de jabuticabas.
Fez uma linda árvore de Natal com um pinheirinho por ela mesmo plantado, com alguns metros de altura, enfeitou-o com bolas coloridas, sobras do Natal passado, e preparou uma ceia de dar água na boca.
Aproximava-se o dia tão esperado. Neste ano não haveria como dar presentes. O dinheiro andava escasso.
Naquele dia vinte e quatro desabou uma aguaceira. Uma enchente caudalosa desceu levando tudo de roldão.
A familia do velho Chico perdeu tudo que ajuntou pela vida afora. A geladeira, comprada à prestação, a televisão novinha, que ainda não fora instalada, naquela rocinha erma não havia internet, e quase sempre faltava energia, tudo foi levado pela enxurrada lamacenta, que acabou com a festa com todo cuidado preparada.
Mesmo ao sabor dos desenganos a familia do velho Chico não desanimou. Afinal era quase chegado o ano novo.
Eis que o ano trágico teve fim.
Adentrou janeiro. Era um ano tão alvissareiro que todos, naquela casinha humílima, hoje reduzida quase a um resto de escombro, que por não seria pior do que aquele que passou.
Afinal, dado a valentia daquela familia acostumada a tantas desilusões e amarguras, seria mais um começo de um recomeço bem melhor.
É o que espero para todos nós. Depois de um ano cheio de contratempos e recheado de acontecimentos trágicos.