Eu quero uma casa no campo

Nasci na cidade. Desde criança, nas férias de final de ano, depois de concluir mais um ano, como este que quase termina, sonhava com as férias de dezembro.

A primeira vez que tomei gosto pelos ares do campo foi numa rocinha encantada, morada de umas tias avós, ai que saudade das tias Mariana, Leonor, e do saudoso tio Júlio, irmão mais velho, filhos da querida bisavó Mariquinha, que viviam felizes naquela fazendinha da Cachoeira, onde um corguinho serelepe tocava um carneiro, onde pés de jabuticaba floresciam no mês de dezembro, onde galinhas ciscavam e escondiam os ovos na moita de bananeira, onde eu, primos, da vizinha Perdões, nos divertíamos a beça, ávidos pela chegada da hora do almoço, naquela mesona enorme, onde a carne de porco era guardada em latões acondicionados em banha de porco, a comida servida era feita num fogão a lenha, cuja chama crepitava nos dias frios, aquecendo-nos não apenas o corpicho jovem, bem como nossa alminha infantil.

Era ali que tomávamos banho numa baciona enorme. Quase igual a uma piscina que hoje existe em minha roça.

Sempre quis ter uma casa no campo. Onde pudesse receber meus amigos, aparentados, vizinhos.

Diz, com muita propriedade, um colega de faculdade, que o agora doutor Paulo Rodarte é um homem urbano. Mas com os pés profundamente arraigados no esterco de curral. E ele ama o mugido das vacas, assim como se deleita em ver os canarinhos da terra, amarelinhos e por amarelar, a ciscarem o estrume seco das vacas que ruminam, e talvez nem saibam pensar.

Sempre quis ter uma casa no campo. Onde pudesse me libertar da azáfama da cidade, passar horas vazias sem ter o que fazer. A não ser olhar as águas mansas de uma represa. O vai e vem das vacas deixando o curral. Já com saudade das suas crias, que nem sabem quando a mãe vai voltar.

O encanto por uma casa no campo continuou vida afora. Pensava que todo médico podia ser fazendeiro. Um equivoco que se mostrou bem mais tarde. Depois de descobrir que vaca não dá leite- tem de tirar. E que tirar leite do peito da vaca não é só assentar naquele banquinho improvisado. Por vezes a vaca abana o rabo. Para tentar afastar a mosquitada que infesta o curral.

Sempre acalentei, cá comigo, ter uma casa no campo. Abdiquei do sonho de ser fazendeiro. Passei o bastão a um amigo. Que ora toma conta de minha propriedade com muita sabedoria e honestidade.

Mas, para não ficar longe do mugido das vacas e do cheiro do curral decidi construir outra casa no mesmo campo. Onde pudesse dormir sossegado.

Pra ali me desloco aos sábados e domingos. Ainda sonho, como em criança, novamente me transportar ao passado. Para escutar o jacu piando. As jabuticabeiras produziram aquelas frutinhas doces. E disputá-las com os marimbondos e maritacas palradeiras. Subindo naqueles galhos finos. Sem medo de me escorregar.

Hoje esta casa no campo já foi construída. E como ficou linda aquela edificação. Ela olha as águas barrentas da represa do funil. Por onde navego em águas mansas.

Aquela casa de campo levou um tempão para ser concluída. Levou-me um dinheirão.

Pena que não possa desfrutá-la em companhia das queridas tias de Perdões. Da mesma forma dos meus pais que já se foram.

Mas, para meu consolo, aquela casa no campo é onde ainda posso receber os amigos. Netos, filhos, família.

Sempre sonhei ter uma casa no campo. Espero poder curti-la por muitos anos mais…

 

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