Hoje tive de me desfazer do último peixinho do meu aquário.
Agora cedo, por volta das seis e meia, encontrei-o boiando, mortinho da silva.
Não tive como dar-lhe um enterro decente. Acredito que peixes aquarianos preferem ser deixados ali mesmo. Onde sempre viveram. Não sei se uma existência feliz. Pois ignoro se peixinhos sabem sorrir.
Simplesmente, nesta manhã linda, sol a brilhar depois de uma chuva que caiu durante a noite, aqui cheguei. Destampei o vidro que cobre a superfície do aquário, retirei o peixinho morto com um puçá, e joguei-o pela janela. Pensando, talvez, que noutra vida a gente pudesse voar.
Só restaram, entre as pedras do meu aquário, lembranças vazias daqueles peixinhos todos que por ali passaram. Ainda não tenho coragem de adquirir outros habitantes daquela caixa de vidro espelhada. Pois o final do ano se avizinha. E daqui me ausentarei por alguns dias. E não poderei alimentá-los como sempre faço no despertar das manhãs.
Esta imagem daquele peixinho sobrenadando morto, de olhinhos fechados, me levou a sofismar sobre outro natal de uma menininha, de nome Aninha, que viveu há tempos numa rocinha perdida onde apenas meus sonhos alcançam.
E como sonhar faz bem. Imaginar causos, loisas, coisas, que dentro de minha cabeça fervilham a cada manhã.
Aninha era uma menininha de cabelos longos. Pele tostadinha pelo sol da roça onde moravam seus pais. Era uma menina sonhadora. Poetinha inspirada. Que passava metade das noites enluaradas contando vagalumes, imaginando serem eles estrelinhas miúdas, caídas ao chão numa noite escura, depois de tentar alçar voo e se tornarem estrelinhas de verdade.
Aproximava-se o Natal. Aninha havia plantado um pinheirinho por detrás de sua casinha tosca. Naquele ano, que hora quase finda, Aninha, numa tarde chuvosa, recolheu o pinheirinho, com todo cuidado e o transformou numa linda árvore de Natal.
Enfeitou-o com frutas colhidas de véspera na chácara. Maçãs vermelhas, pêssegos cor de rosa, mexericas amarelinhas, limões verdes como asas de maritacas, povoaram aquela arvorezinha miúda, que ficou uma belezura.
Dezembro chegou a sua metade. Faltavam apenas alguns dias para a chegada do Natal.
Aninha, toda entusiasmada com as festas natalinas, uma leitoazinha engordava num chiqueiro perto, um peru glugluzava, feliz por ainda não adivinhar qual seria o seu destino, incerto como a vida de todos nós, juntou todas as suas economias, num cofrinho porquinho, e se preparou para ir à cidade a fim de comprar presentes para dar aos queridos pais.
Mal sabia ela qual seria o desfecho daquele ano que sucumbia ao calendário.
Era quase o dia de Natal.
Naquela noite especial caiu uma aguaceira de fazer-nos lembrar da Arca de Noé. Mais parecia um dilúvio. Uma enchente torrencial acabou levando tudo de dentro daquela casinha humílima. Não restou móvel sobre móvel. Tudo foi levado pelas águas barrentas que desceram como cascata morro abaixo.
Aninha recolheu o pinheirinho todo enfeitado, sujinho de lama, metros adiante.
Seus queridos pais morrerem na enchente. Foram encontrados seus restos mortais soterrados sobre metros de lama viscosa.
Eis que o ano terminou. Fez-se sol. A chuva serenou.
Aninha ficou só. Dentro daquela casinha tosca. Naquela rocinha desencantada.
Quando penso na história da meninazinha Aninha, e vejo meu aquário vazio, entra-me peito adentro uma melancolia profunda.
Ainda me lembro, com saudade, dos natais passados, na casa dos meus pais. Que hoje nem existe mais…