Mudar de ano ou mudar o ano?

Não restam dúvidas que o ano que passou não foi nada satisfatório.

Tudo me cheira a pandemia.

As internações que não tinham fim. As mortes anunciadas. A crise se alastrava como fogo em palha seca.

Tudo era clamor do povo sofrido. Quase não se viam sorrisos por onde a gente andava.  Famílias inteiras padeciam da falta de emprego. A miséria campeava a solta por todos os rincões da nossa pátria amada.

O ano ameaçava terminar. Dezembro, em sua quase metade, faltavam apenas alguns dias para a chegada do Natal.

Naquela casinha simplesinha armou-se um presépio. Um burrico juntava-se a uma vaquinha tosca. Ambos eram idênticos aos que se viam prestes a entrar no curral.

O pai, de nome Zito, era a cara da singeleza do campo. Ele, sua esposa amantíssima, dois filhos menores, que não estudavam por causa da tal pandemia, as aulas estavam suspensas desde quando ela começou, viviam à custa da renda do leite.

As vacas não apenas eram a fonte de renda como também o motivo de suas alegrias.

Delas escorria um leite quentinho. Vendiam o que sobrava. Com o resto da produção faziam queijo.

Naquele dezembro chuvoso a lama quase impedia a chegada do caminhão leiteiro, que atolava no alto do morro agudo. Era preciso levar aqueles latões de leite pesados no lombo do cavalo eunuco. Que acabou morrendo de inanição.

Assim escorria a vida daquela familia nascida e criada na roça. Dali tiravam o pouco que recebiam do  laticínio. O preço do leite oscilava dependendo da estação. Na seca o preço subia. Nas águas o custo decrescia. Mas, no entanto, o valor pago pelo litro de leite quase não compensava a produção.

Naquele dezembro moribundo a familia do Seu Zito quase desistiu da lida. A roça de milho não foi adiante. As chuvas, ao invés de ajudarem, acabaram  por azedar o crescimento dos pezinhos de milho. Tudo cheirava a mofo. Não se via o sol fazia tempo.

Naquela manhã, de uma segunda-feira, antes das cinco da manhã, uma aguaceira acabou por destruir o telhado daquela casinha humílima. Todos acordaram em sobressalto. Perderam quase tudo. Menos a vontade de viver.

Eis que dezembro termina. Mas não termina o sofrimento daquele povo obreiro e resignado.

Seu Zito, no dia de Natal, prometeu a si mesmo, orando contrito, que outro ano iria começar.

Um ano diferente. Mais ameno.  Mais fraterno. Mais rico em sentimento.

Entra ano e se despede outro. Oxalá o novo ano seja de fato diferente.

Todos nós vamos mudar de  ano. Mas mudar o curso do novo ano só depende de nós. E só ter esperança de uma vida melhor…

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