E como ele passa depressa…
Quando nos deparamos a infância já se foi ao longe.
Quando menos se espera a vida nos intima a ficar velhos.
E, em pouco tempo a morte nos espera. Sem mandar aviso. Nem um recadinho sai de sua boca pútrida, com seu hálito que nos cheira ao fim, seria em verdade o final? Não o começo de outra existência? Mais feliz do que tem sido a nossa?
Já passei por tantas coisas. Já pulei a fase de criança. De repente vi a minha infância se perder na curva do tempo. Já ultrapassei a fase de adulto. Já perdi a mocidade pensando no que me tornar um dia. Já fui chamado de apressado. De orgulhoso. Até de vaidoso. Agora o espelho não me diz respeito. Já deixei de ser menino. Já perdi a conta de quantas vezes tive de engolir desaforos. Já fui brigão. Já criei confusão.
Agora, nesta fase da minha vida, repenso a razão de tantas brigas, de tanto me atormentar com as dificuldades que se interpuseram entre eu jovem e o idoso de agora. Já fui taxado de sonhador. De não ter suportado a dor que sentia.
Já hoje, repensando tudo que passei, as experiências que adquiri, por que me descabelar por qualquer mínima coisa? Já que não podemos mudar o mundo passei a não querer mudar a mim mesmo. Dizem que burro velho não muda a marcha. Continuo a trotar como um cavalo velho. Pra que me endireitar se até hoje não consegui mudar meu modo de encarar a vida?
O certo é que, nesta altura da minha existência, não querendo saber o quanto de tempo me resta, procuro ser feliz a minha maneira.
Ainda semi aposentado, não de todo, pela metade, faço apenas o que me apraz. Acordo ao nascer do sol. Durmo o que me convém. O suficiente para encarar novo dia.
Já passei do tempo de me apoquentar com pequenas coisas. Procuro fazer o suficiente para não perder o que me resta do tempo sem medo de ser taxado de insano. E, se por acaso alguém pensar que sou louco, tento abrir-lhe os olhos dizendo que o limite entre a sanidade e a louquice é tão tênue como um fiapo de linha que nem passa pelo buraco da agulha.
Já ultrapassei o tempo de me preocupar com o que dizem de mim. Comentem o que quiserem. Eu simplesmente filtro os bons dizeres. Aqueles que não dizem nada apenas não ouço, ou não leio o que vai escrito. Simplesmente apago o dito. Ou digo que eles não me dizem respeito.
Já passei do tempo de me apoquentar com o que vem pela frente. Vivo tão somente o tempo presente. Sem me desvencilhar do passado que tantas saudades me traz.
Já vivi o suficiente para não deixar que doenças interfiram na felicidade que tento conquistar. Como médico penso ter aprendido a pelo menos sanar as dores que por acaso vier a senti-las.
Já passei por tantas coisas… Não será umazinha apenas que me fará perder o sono. Já que o tenho curto. E não pretendo alongá-lo.
Já passei do tempo. Já conquistei quase tudo que desejei. Já tenho netos. Quem sabe terei mais um?
A única coisa que ainda não tenho, e desejo tanto, talvez seja um dia ter meus pais por perto. Um dia, quem sabe, irei encontrá-los de novo. Nalgum lugar encantado. E assim poderei matar a saudade.
Já passei do tempo. Não sei o quanto de tempo me sobra. E nem pretendo saber…