Mudam os presentes…E a vida continua

Antigamente me lastimava por fazer aniversário próximo ao dia de Natal.

Não recebia os presentes em dobro. Apenas tinha de eleger entre aquela bicicletinha de rodinhas amarelas e aqueloutro patinete que me atirou ao chão incontáveis vezes.

Mesmo assim era uma alegria imensa. Dia sete, dia do meu aniversário, quando completei meu primeiro aninho, mal sabia identificar entre um pirulito e uma bola de capotão. Pra mim tudo era festa. Sorridente, banguelinha, sorria só de ver meus tios, avós, aparentados, comparecerem aquela festinha improvisada, naquele terreiro cercado de galinhas, na vizinha Boa Esperanca, da qual me recordo cheio de saudade dos meus queridos pais.

Foi a partir do ano de um mil novecentos e cinquenta e cinco quando para esta cidade me trasladei. Não foi por minha vontade. Acontece que meu querido pai foi transferido de cidade. E, a partir daquele ano distante passei a morar naquela mesma rua, que daqui se avista pelos fundos, para aquela mesma casa, que agora se transformou num lote vazio, a saudosa Rua Costa Pereira, transformada radicalmente em rua das clínicas, recheada de lembranças ternas, por onde sempre passo, ao cair das tardes.

Ainda me recordo do primeiro presente de aniversário. Se não me consome a lembrança foi um velocípede de três rodinhas que me levavam passeio afora. Quantas quedas dele levei. Quantos galos na testa colecionei.

O segundo acredito ter sido uma bola de capotão. Ou foi um caminhãozinho feito em madeira? Não me lembro bem.

O fato é que os anos passaram. Os presentes foram se transformando. E eu crescendo.

A partir de não sei qual idade os presentes foram se multiplicando. Como filho único, já que fui o primeiro neto, do saudoso avô Rodartino, a cada aniversário colecionava regalos.

Vieram os joguinhos de montar. Um cavalinho intimamente ligado a um pedestal que não permitia que ele e eu fossemos jogados ao chão. Um carrinho de bombeiro passou a ser o meu predileto. Ele era de plástico e pouco durou. Logo se espatifou na primeira brincadeira.

Anos avoam. Os brinquedos foram mudando. Os natais passando. E eu envelhecendo.

A partir de certa idade os presentes foram escasseando.

Hoje, nesta idade que coleciono, tantos anos se foram, passei a ser provedor de presentes.

Transformei-me em Papai Noel dos meus netos. Não mais recebo presentes. Presenteio-os.

Neste próximo dia sete de dezembro faço mais um desaniversario. Não mais conto anos. Procuro descontá-los dos anos percorridos. Não sinto os anos passarem. Mas eles passarinham.

Caso pudesse escolher qual presente receber, nesta data que se avizinha, perto de mais um natal que se aproxima, quais seriam eles?

Por certo não seria uma bola de capotão. Muito menos um velocípede que nem existe mais. Um caminhãozinho de madeira está fora dos meus planos. Ai que saudados dos meus vinte anos…

Caso pudesse escolher outro presente de aniversário não seria uma bicicletinha de rodinhas das quais logo me desvencilhei.

Seria sim. Continuar a ter saúde que felizmente nunca me faltou. Ter discernimento para decidir qual o caminho para ser feliz. Ter meus netinhos a minha volta. E, quem sabe voltar no tempo. Ter meus pais nem que fosse para um último abraço. Poder voltar àquela mesma casa. Passar um derradeiro Natal como antigamente.

Pena que o tempo passa. E nós envelhecemos.

Os presentes se transformam. E nós não ficamos imunes à passagem dos anos.

Antes recebia dois presentes em duas datas distintas. Agora, prestes a completar mais um ano de vida, passei de menino ávido pela chegada do Natal, a Papai Noel dos meus netos.

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