Parei de deixar de lastimar desde quando a idade chegou.
Antes, em menino ainda, vivia a lamentar por qualquer coisinha que me fizesse contrariar as minhas vontades.
Se por acaso algum coleguinha de escola tirasse uma nota melhor do que a minha passava o resto da aula de mau humor. Ao invés de me aplicar mais da próxima vez.
Agora, com o tempo passando, com meus setenta e dois se avizinhando, passei a entender que reclamar não leva a nada. Melhor ficar em silêncio quando as coisas não remam a contento a ficar emburrado, olhando desconsolado os preços subindo, o salário decrescendo, a crise nos afogando, a situação do país se complicando, como se fossemos os únicos a contemplar a vida com olhos desiludidos, já que estes tempos bicudos um dia passarão. É só ter paciência, resignação, que um dia a coisa melhora. O trem da vida passa. É apenas uma questão a ser discutida com calma. Já que nem tudo que nos aflige são favas contadas. Outros sofrem mais ainda que a gente. Já que não somos a derradeira bolacha do pacote.
“Podia ser pior”.
Este dito descobri escrito na parede de uma casinha tosca, de um vizinho de pasto, nos arrabaldes de minha rocinha, neste final de semana que passou de papel passado.
Estava em busca de um cavalo novo. Há tempos não cavalgava. Por falta de tempo, já que havia terminado a minha nova residência, aquela que beira a represa, deixei meus animais de cela abandonados.
Theo, o lindo cavalo castanho, filho da mesma égua mãe, de outros três rebentos, acabou ficando cego de um olho. Por culpa de uma espetadela num espinho nojento.
A sua desventurada mãe, já bem idosa, nunca deixou de ser formosa, acabou perdendo a vida nestes tempos difíceis da pandemia. Mas ela não morreu da tal covid. E sim por ter chegado a hora do seu passamento. Uma de suas filhas mais lindas morreu de picada de cobra peçonhenta.
Acabou restando apenas o Theo e um seu irmão mais novo. Um potrinho a ser domado. Em muito parecido a sua mãe, a Cigana. Só que mais uma atropelo acabou me fazendo desistir de sua doma. Eu não sou pião. Muito menos cavaleiro. Ando a cavalo pro gasto. Quem me dera montar a pelo.
Nesta minha escapadela, a procura de um cavalo pronto à lida, marchador, de boa ardência, que não seja velho como eu, acabei me encontrando com Seu Tião.
Diziam, nos arredores, que só ele podia ter o que buscava. Era ele um mestre em domar potrancas. E eu só sabia apreciá-las. Como tenho o costume de admirar belas mulheres…
Encontrei o velho Tião assoberbado de trabalho.
Naquele sábado que passou, durante o nosso curto entrevero, a ele perguntei como andava as coisas em sua vida.
“Ah!, podia ser pior. Na noite passada a melhor vaca do curral, de primeira cria, acabou expelindo o concepto depois de uma parição complicada. Acabou por morrer as duas. Tive de arrastar mãe e filha. Pois enterrá-las seria uma missão quase impossível. No dia de ontem morreu um touro reprodutor de primeira. O pobre morreu sem que nada pudesse fazer senão encomendar-lhe a alma ao santo protetor dos garanhões. De pior em pior as coisa prometem melhorar. Quem sabe no ano que vem tudo vai mudar”?
Dali sai pensando no dito. Nem tudo que a gente deseja acontece. Quem somos nós para mudar o mundo…
Podia ser bem pior. Por que não enxergar a vida por outro prima menos obscuro?