A vida passa num galope

Que coisa!

Ontem era outubro. Setembro passou num sopro. Logo o ano se desfaz. Chega dezembro.

Entra o ano novo. E eu, de idade nova, não percebo a marcha inclemente dos anos.

Quem me dera ter meus vinte anos…

Aquela idade em que os sonhos eram sonhados a cada manhã. Agora, prestes a completar meus setenta e dois anos, quase não sonho mais.

São sonhos distintos. Não sonho com que profissão abraçar. Já consegui que meus sonhos se materializassem. Agora, nesta idade que me contempla, basta que tenha saúde para continuar por anos a fio. E que as doenças esperem um pouco para em mim se aboletarem.

Sonho sim, em ver meus netos crescerem. De meninos saudáveis se transformarem em jovens responsáveis. Quem sabe algum dele vai trilhar os caminhos do avô. Ai quem me dera ver pelo menos um deles tornar-se escritor. Uma profissão que não é considerado um meio de vida. E sim uma aptidão maravilhosa, poder ver o despertar do sol e tintá-lo com as cores que lhe aprazem, a chuva que cai, mansamente, a noite virar dia, a tempestade amainar-se de vez, a mãe embalar o filho que nasce, a grasnar das maritacas nos tempos de jabuticaba madura, os vagalumes piscarem simulando as estrelinhas que no alto brilham, tudo, pra ele, é motivo de devaneios. Dizem que o escritor vive no mundo da lua. E como é gostoso assim conviver com as estrelas.

A vida passa num galope. Quando se vê não temos mais vinte anos. Quando percebemos o tempo avoa sem asas. E como gostaria de poder avoar nas asas do tempo. Deixar-me levar pela chuva que agora cai. E quem sabe retornar aos tempos de criança?

A vida tem a velocidade que não se mede em metros. Ela sim é veloz como o voo curto das seriemas pernaltas. Um voo sem asas. Um voo lépido quando se morre sem ter vivido o suficiente para contemplar a vida com seus matizes e cores.

A vida passa sem tempo de vê-la como a gente deseja. Pois muitas vezes os nossos desejos não se realizam. E morremos sem ter o prazer de abraçar aqueles que nos deram a vida. E dizer a eles o quanto os amamos. Em vida…

A vida passa tão veloz que não conseguimos marcar o quão apetitoso era o abraço de mãe. Muitas vezes não tive a coragem de aninhar-me em seus braços. Quando mais precisava eu me esquivava. Agora me arrependo de não tê-lo feito.

A vida passa. E a gente, deixamo-nos ultrapassar pelo tempo.

Quando nos olhamos no espelho ele, infiel alcagueta, logo diz: “você está velho. Não enxerga as rugas que lhe passarinham pela face? A cãs que lhe enxovalham as têmporas? Vê se te enxerga? Cuida da aparência. Logo logo um asilo lhe espera. E a morte, fiel e matreira, logo lhe vai pegar pelas canelas”.

Já que a vida passa, naquele ritmo frenético, por que não viver o dia de hoje. Não se apoquente com o amanhã. Ou o depois de outro amanhã. Faça tudo que lhe apraz no momento presente. Viver é a consequência de ter nascido. Morrer não é o fim do caminho. Outra vida deve surgir depois.

Já que a vida passa naquele ritmo alucinante, não se preocupe tanto. Viva, respire, faça do dia de hoje a continuação do ontem. E deixe o futuro pra depois.

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