A cada manhã, daqui do alto, olhando em direção aquele lote vazio, me recordo dos natais passados.
E como era bom esperar a véspera daquele dia bendito.
Quase não dormia a noite. Ainda cria em Papai Noel.
Esperava ardentemente a hora de desembrulhar os presentes. Em caixas cuidadosamente embrulhadas por minha saudosa mãezinha.
Naqueles tempos ainda se usava escrever cartinhas ao Papai Noel. E elas eram endereçadas a um lugar imaginário. Um lugar gelado. Pensávamos nós.
Pena que o tempo faz da gente descrentes. Anos depois, já quase ancião, apesar de ainda me considerar menino, faço traquinagens ainda, quando me encontro com meus netinhos, passei a descrer no bom velhinho.
Agora sou eu o que pensava ser ele. Naquela noite mágica enveredo-me pelas lojas, tentando comprar regalos. E tento adivinhar quais presentes eles gostariam de receber.
Os brinquedos são outros.
Em lugar daquele carrinho de rolimã, daquelas bonecas similares a algumas personagens de conto de fadas, eles cederam lugar a robôs, teleguiados a distância, a motoquinhas que andam sozinhas, a carrinho dirigidos por controle remoto, e até mesmo coisas que antes não existiam.
Os celulares são as meninas dos olhos das nossas crianças. Eles passam quase o dia inteiro manuseando aqueles aparelhinhos, cada vez mais sofisticados, coisas que a gente, depois de ficarmos velhos, nada mais entendemos de como eles funcionam.
Embora agora tenha ficado idoso, não me sinto vaidoso. Ao olhar no espelho quase não mais penteio o que restou dos meus cabelos. Fito as rugas. E elas não me dizem nada. E quase não percebo as olheiras que percorrem o canto dos olhos. Basta-me enxergar. Tão somente.
Hoje mesmo, neste dia dezoito de novembro, quase dezembro, e como o tempo passa veloz, ao chegar aqui, na minha oficina de trabalho, o prédio ainda se mostra vazio, antes das sete, deparei-me com uma cena inacreditável.
Foi quando acendi as luzes do meu aquário. Agora nele só restam dois peixinhos. Um maior. Outro bem menorzinho.
Bem no fundo, entre as pedras, quase imperceptível, vi, juro ser verdade, apesar de muitos não acreditarem, um arvorezinha recém-fincada entre as pedras lodosas do meu aquário.
Era uma arvorezinha de Natal. Bem debaixo, pequeninha, uma caixinha diminuta. Embrulhada num lacinho de fita amarela. E, depois que desembrulhei o pacotinho percebi que ali estava um presente reservado a minha pessoa.
Não tive como perguntar aos dois peixinhos quem tinha feito a artimanha. Pois eles simplesmente lançaram borbulhas à superfície do meu aquário.
De repente emudeci. Desembrulhei a tal caixinha. E o que ela continha?
Simplesmente, nada mais, um lindo relógio de marcar as horas. Com a seguinte inscrição: “é seu. Nosso cuidador. Com amor lhe presenteamos neste final de ano. Como prova de nosso amor e veneração”.
Não tive como retribuir aos dois peixinhos aquarianos. Simplesmente olhei nos seus olhinhos mergulhadores e disse: “muito obrigado mesmo. Desejo-lhes tudo de melhor. Que suas vidinhas curtas sejam pródigas em muitos anos de felicidade pura. Tenham muita sorte. E que ração nunca lhes falte. E que o amor prevaleça entre vocês dois”.
Agora, quase sete horas da manhã, ao voltar os olhos em direção ao aquário, vi, com estes olhos sonhadores, o maior deles me dizer: “obrigado doutor. Por cuidar da gente. Já que o senhor não mais tem os seus pais do lado, tentaremos ser seus filhos abençoados”.
Nunca poderia imaginar do que os peixinhos aquarianos são capazes.