Que Natal é esse?

Hoje, antes de chegar ao consultório, era ainda cedo, antes das seis da manhã, deparei-me com uma cena por demais inusitada.

Junto a um cãozinho, encoleirado, pessoas escarafunchavam sacos de lixo, em busca de alimentos, ou alguma coisa que pudessem aproveitar.

Tive tempo de parar um bocadinho para saber a razão de tal procura. Sabedor que pelo pais inteiro pessoas dormiam ao relento, a fome, a miséria, campeavam soltas pelas ruas, neste final de ano, nas barbas do Natal.

Era uma mãe, duas crianças, que ali, naquela lixeira enorme, transbordando pelas beiras, junto aquele cãozinho faminto, oriundos de uma cidade distante, que, em busca de vida nova, por aqui passavam, a espera de encontrar um lugar melhor para viverem.

Depois de várias tentativas malogradas deram com o burro n’água.

A mãe, ainda jovem, pra mim ela contava com menos de trinta anos, olhou-me com olhos de uma mistura de vergonha e um sentimento indescritível que para mim inspirava saudade.

Saudade talvez de tempos melhores.  Quando viviam outra realidade.

Não tinha nada a oferecer naquela hora quase madrugada. A não ser emprestar a eles um cadinho de solidariedade.

Avizinhava-se o Natal. Em pouco mais de alguns dias, contavam-se as horas, eis que chegaria o dia de o bom velhinho chegar, devagarinho, entrar pela chaminé, quase entalar seu corpo gorducho, e, debaixo daquela arvorezinha feericamente iluminada, ir deixando presentes, um a um, segundo as cartinhas escritas pelos meninozinhos, só que, naquela familia que mendigava as sobras do lixo, nem mesmo um carrinho de rolimã, uma bicicletinha de rodinhas amarelas, um reles sapatinho novo, seria possível receberem por não terem sequer um lar onde morar.

Aqui cheguei pensando na vida. E como ela trata diferente as pessoas.  Algumas têm tudo. Outras tudo lhes falta.

E que Natal é esse? Que devemos passar. Seria um Natal igual aquele da minha infância? Com a familia reunida. Mesa farta. Brinquedos espalhados debaixo daquele pinheirinho enfeitado com bolas coloridas? Onde luzes brilhavam piscantes?

Ou seria mais um Natal como daquela familia que procurava naquele saco preto um resto das sobras que porventura pudesse mitigar-lhes a fome.

Parei pensando no sentido das festas natalinas. Não seria o momento de mudar o estado de coisas?

Tenho procurado, neste final de ano, ano trágico por que temos passado, olhar a vida por outro prisma.

Já que não posso mudar a realidade, pelo menos tento mudar a mim mesmo.

Neste natal que se aproxima por que não nos darmos as mãos? Se cada um fizer a sua parte, não mudaremos o mundo. Mas poderemos talvez mudar, dentro da gente, aquele sentimento que com certeza iria nos fazer melhores. Mais fraternos. Mais solidários. Mais humanos.

Confesso ser difícil mudar o timão do mundo. Fazê-lo navegar em aguas plácidas.

Aquela familia que escarafunchava aquele saco de lixo tinha fome. E precisava de nossa ajuda.

Já que não podemos transformar a realidade que nos rodeia, quem sabe, se cada um procurar tirar um pouco do que lhe sobra, não teríamos tanta gente passando fome.

E este Natal poderia ser diferente. Quase igual aquele que tive na minha infância perdida.

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