Novembro rasgado ao meio. Quase o ano vem ao fim.
Ontem foi feriado. Dia de celebrar uma data importante.
Foi neste dia, há alguns anos atrás, que um monarca, cansado do jugo de Portugal, às margens do Riacho Ipiranga resolveu, em comum acordão com sua comitiva, dar um grito, dizem ter sido desafinado, dizendo ao povo brasileiro, que, a partir de então estaremos livres da pátria que nos descobriu. Já que não poderia devolvê-la de volta. Assim pensou ser melhor para o Brasil.
Desde então passamos de dependentes da coroa portuguesa a uma nação liberta. Até hoje penso, depois de tantas maracutaias aqui registradas, não seria melhor continuarmos a ser uma monarquia? Já que a anarquia aqui tem prevalecido. Desde quando resolveram instituir outro regime neste país tão lindo e ao mesmo tempo tão dispare.
Ontem foi feriado. Alguns pobres coitados nada têm a celebrar. Viajar pra onde? Já que em casa falta tudo. Com que dinheiro a gente vai ao estrangeiro? O dólar anda pela hora da morte. A grana anda curtinha como as saias de algumas meninas. Os preços sobem a cada momento. O custo da cesta básica sobe na contramão de nossos salários. A inflação galopa como um cavalo trotão. Quem anda pelas ruas depara-se com cenas de fazer doer o coração.
Desabrigados, sem tetos, moram em barracas improvisadas. Famílias inteiras tentam enganar a fome comendo restos das sobras. Ricos são cada vez mais opulentos. Políticos se locupletam de gordos salários. Fora os por fora. As rachadinhas, embora denunciadas não são provadas. E quem nos dirige faz de conta que tá tudo bem. Embora a realidade mostre a outra face de um pais à deriva. Perdido num oceano de esperanças mortas.
Por vezes me questiono: proclamar o quê? A situação vigente? A carestia galopante? O alto preço do gás de cozinha? O preço da gasolina que não para de subir? O desemprego crescente?
Ontem celebramos uma data importante. Foi feriado. Hoje amanheceu um dia lindo. Sol, céu azul, parece que a chuva vai dar tréguas.
No entanto, pensando na atualidade, na crise que estamos atravessando, sem fim, na falta de perspectivas de crescimento por que passa o nosso malfadado país, proclamo: não temos muito a comemorar.
O dia da proclamação da independência já se faz longe. Tão distante quanto das montanhas de Minas ao mar.
Mais uma vez gostaria de proclamar outra realidade. O dia em que todos nós não teremos de lastimar.
Um país mais fraterno e igualitário. Onde todos seriam em verdade iguais perante a lei. Onde todos teriam direito a um teto. Onde os salários não fossem tão aviltantes. Onde um jogador de futebol não fosse tão endeusado. Em contrapartida um professor tivesse pelo menos metade do seu salário.
Um lugar onde se pudesse viver condignamente. Sem fronteiras entre ricos e pobres. Onde os políticos de fato nos representassem. Um país onde os impostos fossem em verdade distribuídos igualitariamente. Onde a corrupção fosse em verdade punida exemplarmente.
Neste dia da proclamação da república pouco se tem a comemorar. Quem sabe algum dia poderemos, de fato e de direito, viver num país onde a miséria não fosse tanto aviltante. Onde todos em verdade pudessem viver numa sociedade menos díspare. Que este dia chegue. Logo. Tomara chegue o tempo de dizer que tudo isso não passou de favas contadas. Que eu possa contar aos meus netos o quanto está sendo bom viver num país como o nosso.
Que eu possa celebrar o dia da proclamação da nossa independência. Sem vergonha de me envergonhar.