A meninazinha que virou estrela

Neste dia cinzento, chuva a cair a noite inteira, pouco se vê lá no alto.

A não ser um cinza que encobre a luz do dia, nesta manhã véspera de um feriado prolongado, já que na segunda- feira celebra-se o proclamação da república de nossa pátria amada, o sol teima em não acordar.

Ao que tudo indica ele vai despertar de ressaca. Depois de uma noite de amor com a lua, já que penso estarem perdidamente apaixonados um pelo outro.

Estrelas não brilham mais no firmamento. Quem sabe durante a noite eu as possa ver de novo. Oxalá nos brinde um final de semana rico em claridade. Já que a chuva já caiu o suficiente para fazer crescer aqueles pezinhos de milho jovenzinhos, recém-emersos da terra onde foram plantados. Sol e chuva são essenciais para enriquecer o verdume da pastaria, fazer sorrir quem ama o campo, já que chuva em demasia pode atrapalhar a vida de quem vive na roça.

Foi quando me lembrei daquela meninazinha morena, da cor de jambo maduro, espertinha como ela só, prestativa, de nome Zaninha.

Desde quando nela bati os olhos encantei-me por aquela menina.

Ela morava numa rocinha vizinha à minha. Filha de pais separados, quase não conheceu o pai, que se escafedeu daquele pedaço de chão por culpa única de outro rabo de sala, elazinha tinha tudo para ser feliz. E no entando tinha suas horas de introspecção e apatia.

Sabia fazer versos como se fosse uma poetinha maior. No entanto sua estatura era tão diminuta quanto um pezinho de milho que não teve a sorte de crescer como seus amiguinhos do lado.

Zaninha era seu apelido. Todos que a concheciam só a chamavam pelo diminutivo.

E ela pouco cresceu. Nunca se envolveu com um namorico qualquer. Amava os bichos da roça. Tratava tanto os porcos e galinhas como se fossem da familia. Amava ver os canarinhos da terra ciscando o esterco do curral. Cuidava de cães abandonados. Na sua casa vivia uma penca deles. E todos eles viralatavam livres e soltos por aquelas bandas esquecidas naquela lonjura que só eu sei.

Zaninha, aos menos de dez anos, comprometida com os estudos, queria ser alguém. Quem sabe se mudar pra cidade, cursar alguma universidade, ser enfermeira, cuidadora de pessoas enfermas, zelosa como ela só.

Nas horas vagas escrevia versos. Poetisa inspirada e inspiradora de coisas boas, Zaninha amava ficar ao relento, vendo a lua crescer no firmamento, anotando num pedaço de papel tudo que lhe vinha à cabeça.

Foi de sua lavra esta linda poesia que um dia li num rabisco. Quando a familia da menina visitei: “se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas”.

E ela ainda dizia, nas suas encantadoras poesias: “é estranho olhar as estrelas sem poder tocá-las. É triste olhar a lua e não podermos expressar o que sentimos. Usar palavras para expressar os sentimentos é muita ousadia. Sabendo-se que sentimento não se diz – se sente”.

“Você é a estrela que gosto de olhar. A lua que gosto de admirar. O sol que gosto que me aqueça. A lembrança que gosto de lembrar. A esperança que gosto de esperar”.

Assim vivia a amável Zaninha. Perdida entre a inquietação que a mantinha e a inspiração que lhe cavoucava a alma.

Um dia, era um dia como o de hoje, cinzento, chuviscoso, quando passei por ali, numa visitinha de final de semana, ao procurar por onde andava a querida Zaninha acabei não a encontrando.

Infelizmente ela havia partido. Faleceu durante a noite. De causa incerta. Dizem ter sido por um amor não correspondido.

Fez-se noite. A chuva aquietou-se. No céu brilharam as estrelas.

Olhando pro alto, naquela noite linda, incontáveis estrelinhas piscavam vagalúmicas, identifiquei, numa delas, um sorrisinho inconfundivelmente delicioso.

Sem dúvidas, não questionei. Era a meninazinha Zaninha. Que, numa noite escura, depois de uma chuva mansa, acabou se tornando uma estrelinha miúda, de brilho tímido, como ela sempre foi.

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