Como chovia grosso naquela manhã de novembro.
A noite inteira caiu água. Pelo burburinho da chuva parecia coisa pesada.
Mané, sitiante dono de um naco de terra pequenino, vivia do que a terra lhe dava.
Plantava feijão. Tirava um leitinho miúdo. De vez em quando fazia um negocinho. Trocava bezerros em ponto de desmamar por uma novilha em ponto de enxertar. De vez em quando tomava manta. Era conhecido por ser esperto, tinhoso, trabalhador, honesto de tirar o chapéu.
Pra ele a palavra empenhada valia mais do que papel assinado. Um aperto de mão era suficiente para não quiabar.
Mané, apelidado de Trovoada por imitar um trovão, com aquele vozeirão de ouvir à distância, dormia ao empoleirar das galinhas. Acordava quando os olhos se abriam. Sempre antes que o relógio marcasse cinco e meia da matina.
As lidas eram sempre as mesmas. Tomava um cafezinho requentado na trempe do fogão a lenha. Não sem antes ir ao banheiro. Aquele cômodo acanhado ficava do lado de fora da casa. Era um desconforto danado nos dias de chuva como aquele.
Foi naquela segunda-feira, de novembro, quando chovia a goteiras esparramadas, quando Mané Trovoada resolveu sair de casa.
Foi ao curral pensando encontrar as vacas leiteiras. E quem disse que as danadas já estavam a postos na porteira do curral?
Foi preciso ir atrás das extraviadas. E como chovia naquela quase madrugada!
Primeiro desceu uma ladeira barrenta. Escorreu e foi ao chão. E a chuva não dava tréguas. Chovia de montão.
Levantou-se e caiu de novo. Foi quando percebeu que tinha perdido as botinas. E a enxurrada corria serelepe estradinha abaixo. Foi quando descobriu que não era fácil caminhar descalço por aquele caminha barrento.
Mané, meia légua depois, a chuva persistia. E nada de encontrar a Marilia, a Genoveva, muito menos a Manuela. Acontece que as safadas estavam escondidas num matinho não muito longe. De namorico com o boi zebu. Velho conhecido nos arrabaldes por pular cerca quando via uma vaca no cio.
Foi um custo convencê-las a voltar ao curral. Empurrando aqui, escorregando acolá, Mané chegou ao seu destino quase onze horas. E o caminhão leiteiro chegaria impontualmente as onze e meia. Quase sempre. Quando chovia a hora era incerta.
Mané Trovoada terminou de apartar as vacas já perto do meio dia. E a chuva persistia. Nada de o sol dar a cara lambida.
Passou a hora do almoço. E a fome invadia a barriga roncante do pobre Mané. Como não tinha lenha seca, o gás naquele preço, como cozinhar o arroz com feijão? Não lhe restava outra solução senão soluçar de fome.
Assim passou o dia. E a chuva continuava. Eis que chega a noite. A tarde se foi.
Era por volta das nove e meia, o sono não acontecia, Mané, sem televisão, sem energia, já que um raio caiu pertinho daquele poste de madeira carunchada, e ele veio ao chão com um estrondo estridente, não lhe restando outra alternativa senão ler a bíblia, como fazer numa escuridão como aquela, os olhos do velho Mané foram se fechando, cansados de tantas atribulações, e acabou o dia amanhecendo, a chuva continuando, durante a semana inteira.
No dia seguinte seguiu-se a mesma cantilena. A chuva continuou caindo mansamente. As vacas atoladas no barro grudento. A estrada intransitável. A roça de milho acabou afundada na enchente.
Foi então que aprendi. A vida não roça não é pra qualquer um. Durma com um barulho destes.