Por mais que tente não consigo saber o que o amanhã me reserva.
Sei apenas o que aconteceu ontem. O passado remoto também me faz lembrar de tantas coisas.
Aquela casa, que daqui se avista pelos fundos, já não existe mais. Em seu lugar hoje mora um lote vazio. Um amontoado de ferragens prenuncia que lá vai ser construída outra edificação.
Aquela rua, de tantas lembranças ternas, onde passei parte do meu passado, agora está radicalmente transformada. Muitos daqueles vizinhos já se mudaram para outro espaço distante. Pra onde, mais cedo ou mais tarde, todos iremos, apesar de não conseguirmos imaginar quando será.
Ainda me lembro dos meninos da Costa Pereira. Eram crianças como um dia fui. Éramos moleques artiosos. Naqueles idos anos não existiam os celulares. As brincadeiras eram outras. Brincávamos de jogar finca e rodar pião. Pulávamos amarelinha. E com as bolinhas de tênis gastas inventávamos outro jogo. Era chamado de bete. Dois de um lado, outra dupla do outro lado, no meio uma casinha feita de gravetos, onde a bola de tênis deveria acertar. Depois do ato corríamos destrambelhados cada dupla de um lado pro outro. Assim o jogo se repetia. Até a nossa querida mãezinha nos chamasse para estudar.
Ai que saudades daqueles tempos idos. Daquela arvorezinha de Natal feita com um pinheirinho colhido num terreiro baldio. E feericamente iluminado com bolas coloridas. Já se avizinha outro Natal. Mas ele será diferente. De garoto que recebia presentes passei a ser o Papai Noel dos meus netinhos.
Os tempos mudam. E a gente não fica indiferente à passagem do tempo. A velhice nos acena. A infância foi jogada pra trás.
Da mesma maneira que não consigo ficar indiferente à passagem do tempo continuo a contar os anos. Passei a contar historinhas para os meus netinhos. São historinhas de crianças. Pois eles ainda não entendem as minhas crônicas. Espero que algum dia eles possam ler os meus escritos. E, quem sabe algum deles continue a minha saga de escrever a cada manhã.
Não consigo me desvencilhar do passado. Bem sei que o presente é que conta. O futuro é incerto. Quanto tempo mais viveremos? Esta resposta não desejo saber.
Bem sei que hoje é dia dez de novembro. Em dezembro que se avizinha estarei um ano mais velho. Em pouco menos de dois meses entraremos em novo ano. Como o tempo passa veloz. Como as asas do beija-flor.
Tento viver apenas o dia de hoje. Mas não me esqueço daquela mesma rua. Daquela casa hoje reduzida a um lote vazio. Dos meus pais jamais me esquecerei.
Por mais que tente não consigo prever o desenrolar dos anos. Eles escorrem por entre meus dedos. Deixando no seu rastro o sabor amaro da saudade.