“Ah!, não fosse isso!”

Por vezes fico pensando. No porque dos porqueres.

Enquanto muitos têm filhos mais do que devem. Outros elegem a vasectomia como forma de prevenção. E não deixam sobre a terra algum descendente que vai continuar o seu legado.

De vez em quando alguém me liga: “doutor, o senhor faz vasectomia”?

Tento explicar as condições: “você deve ter pelo menos dois filhos. E sua esposa deve compartilhar da sua decisão. Deve ter pelo menos vinte e cinco anos. E só depois de trinta dias deve ser feito o exame do esperma. Só depois de comprovada a esterilidade você pode voltar a ter sexo. Deve manter repouso depois da operação por pelo menos uma semana. Não andar de moto ou a cavalo. Voltar ao médico com o exame nas mãos após trinta dias decorrida a operação”.

E quando o interessado tenta me convencer do contrário, dizendo que não deseja filhos, e mesmo assim quer fazer vasectomia, explico-lhe que deve procurar outro especialista. Não me arrisco em fazer a sua vontade.

Um dia, já era hora de fechar o consultório, a tarde quase se fazia noite, alguém me ligou. A minha diligente secretária e enfermeira diplomada já estava de partida. E eu mesmo tive de atender a ligação.

Do outro lado da linha ouvi uma vozinha fanha: “doutor, eu quero fazer vasectomia. Nasci com apenas um testículo na bolsa escrotal. Sou roncolho. Explicou-me aquela vozinha desafinada. Mesmo com apenas um tento sou pai de dez filhos. Um de cada mulher. Nunca me casei de verdade. Não assinei nenhum papel passado. E as moças com quem tive relação dizem: “toma que o filho é seu”.

Já havia passado das seis horas, quase noite. O dia já escurecia. Ameaçava chover. E eu, cansado das lidas diárias, continuava a ouvir aquela prosa insossa. Que não terminava nunquinha.

E meu interlocutor persistia.

“Queria saber o que devo fazer para me preparar para a cirurgia. Ela é feita no próprio consultório? Ou precisa de internação? Tenho de levar um acompanhante? Ou posso ir eu mesmo de volta a minha casa? E qual o preço do procedimento? Tenho de pagar a vista? Ou em suaves prestações”?

Já estava quase desligando o telefone quando ainda tive de escutar mais uma questão: “doutor, já que sou roncolho, tenho apenas um tento, posso pagar meia? O senhor pode marcar pra que dia a operação”?

Aí, neste ponto da conversa, que já durava mais que uma hora inteira, acabei concordando com quase tudo que ele disse. Menos aquele quesito de pagar meia. E fechamos, em comum acordão para o dia trinta e um de fevereiro. Bem depois do carnaval.

Ah!, se não fosse por este simples fato de ser roncolho. Aquele rapaz conversado iria povoar o mundo. Encheria a terra de uma ninhada inteira. Um exemplo de procriador de mancheia.

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