Neste final de semana estive pensando na palavra idolatria.
Tal a comoção que atingiu todo o povo brasileiro depois da morte de uma cantora compositora que atraia multidões.
Marilia Mendonça em verdade era uma promessa na música sertaneja. Bastante carismática, dona de uma voz portentosa, que compunha versos que falavam não só da força da mulher, das paixões imorredouras, como também da tal dor de cotovelo, que não só nos leva a sofrer por amor, como da mesma forma deixa os apaixonados eternamente enamorados de suas musas, ainda mais quando elas deixam gravadas dentro da gente aquela paixonite que não desaparece, nem com o tempo passando, deixando-nos atordoados, à mercê das lembranças de quando as tínhamos entre os braços.
Idolatria, segundo diz o dicionário, significa admiração excessiva, ou culto que se presta a ídolos, muitos deles de pés de barro, que não resistem à chuva que cai, muito menos ao tempo que passa, pois os verdadeiros ícones são perenes ao passar dos anos, pois seu valor extrapola ao tempo, pois eles em verdade são eternos, e não apenas vivem no tempo presente, como sobreviverão para sempre dentro de nós, saudades dos meus queridos pais.
Conheço, desde quando tive a intenção de comprar minha rocinha, antes prejuizenta, agora menos, um vizinho de cerca, de nome Zé Mané.
Hoje ele é um senhor de barbas brancas, pele tostada pelo sol inclemente, mãos caludas em consequência do trabalho duro, que em muito já ultrapassou os oitenta, no entando parece mais.
Seu Zé, admirado nos arrabaldes, trabalhador contumaz, costuma descansar ao cair das tardes à porta de sua morada, ainda cedo, pois ele costuma dormir antes das seis da tarde, já que acorda junto às galinhas, empoleirado na seu colchão de palha onde guarda as suas economias, já que não confia nos bancos, e nunca precisou pedir dinheiro emprestado, pois o que recebe de aposentadoria é mais do que suficiente para viver condignamente.
Conheço Seu Zé desde há muitos anos. Com ele passo alguns momentos quando volto à cidade. Até parece que marcamos a hora de nosso encontro.
Foi neste sábado, novembro em seu começo, por ele passei. Era por volta da volta das seis e meia.
Ele já se preparava para entrar em casa. Cabelos desgrenhados, camisa aberta no peito, rosto sulcado pelos anos, Seu Zé me convidou para tomar um cafezinho magro. Não tive como recusar o seu convite. Seria uma desfeita se eu assim o fizesse.
Entramos porta adentro de sua morada singela. Naquela casinha pequenina vivia apenas ele já que sua esposa já havia se mudado pro céu.
Comecei a nossa prosa falando do tempo. A chuva, tão esperada, teimava em não cair. A roças de milho careciam de água para crescerem. O céu, azul até demais, não mostrava uma nuvenzinha sequer. Era um cenário de fazer cegar os olhos.
Comentei, an passant, sobre a morte da cantora que havia acontecido neste final de semana. Falei da comoção nacional que até agora persiste. A tudo ele escutou sem esboçar reação nenhuma.
Acabei comentando sobre o que ela achava da palavra idolatria. Se por acaso ele sabia do seu significado.
Seu Zé Mané, coçou a cabeça, e me disse, sem pensar um minuto: “ah, quer mesmo saber? Eu idolatro a chuva que cai na hora certa. Endeuso o trabalho honesto. Venero as pessoas que passam a vida sem insultar quem não merece. Prezo a capacidade de viver condignamente. Sem passar a perna em qualquer que seja. Que trata o próximo como se fosse gente da família. Meus ídolos não têm pés de barro. Eles enfrentam tempestades com o destemor dos bravos. Falsos ídolos não entram em minha morada.”
Deixei o amigo Zé pensando na tal idolatria. A quem idolatrar, de verdade?
Já hoje, nesta segunda-feira, a semana começa, acabei concluindo que o amigo Zé em verdade está coberto de razão.
Cuidado com os ícones de pés de barro. À primeira tempestade eles serão levados de roldão. Não irão durar mais que uma estação.