O azul, pra ele, acinzentou-se de vez

Nunca é demais se lembrar de uma glandulazinha marota, escondida entre a uretra e a bexiga, logo a frente do reto e em baixo da bexiga urinária, que perde a serventia depois que a gente fica idoso, quando jovens ainda desempenha um papel relevante na fertilidade, produzindo enzimas importantes à mobilidade do espermatozoide, celulazinha valente que corre tentando encontrar o óvulo, só um deles consegue o intento, e depois, passados de certa idade, ela cresce, hipertrofia, e acaba entupindo o canal da urina, doença conhecida por hiperplasia da próstata.

E ela tem uma aparentada de mais gravidade.

O câncer da próstata é doença que deve ser pesquisada no homem acima dos quarenta e cinco anos. Quando se tem antecessores com esta mesma patologia o exame deve ser antecipado.

O câncer de próstata pouco apresenta sintomas. Já que ele nasce não na parte da glândula intimamente perto da uretra. E sim noutra região conhecida como zona periférica.

Daí a necessidade premente de se deixar examinar pela região anal. O toque sem retoque não dura mais que alguns segundos. Não dói nem tira pedaço. Muito menos o investigado corre o risco de perder a hombridade.

O toque deve ser precedido de outro exame. O PSA deve ser feito no laboratório. Pois, após o exame retal ele pode subir um bocado. Daí a importância deste exame ser pedido pelo especialista. Embora a mídia meta o bedelho. Quem entende da próstata é o urologista. Ao contrário do proctologista que sabe como ninguém tratar as patologias da região retal e intestinal.

Depois desta breve digressão sobre a próstata e suas doenças, nunca é demais recordar deste mês de novembro, assaz conhecido como novembro da cor azul. E como o azul tem sido predominante neste mês que tem início. Parece que as chuvas serenaram. Ela deram trégua. Para depois voltarem.

As jabuticabeiras encheram-se de flores. Na minha rocinha elas se mostram carregadas de frutos. Não vejo a hora de amanhã chegar. Vou disputá-las com os marimbondos e maritacas. Uma jabuticaba pra mim. Outras deixo pra eles.

Ali, nas barbas de Ijaci, pra onde vou aos finais de semana, se pudesse iria todos os dias, mora um vizinho de cerca. Já bem rodado em anos.

De vez em quando faço-lhe uma visitinha costumeira. Seu Zé Antônio em muito já passou dos oitenta.

Naquele sábado, que a folhinha esqueceu, nosso encontro se deu.

Encontrei o velho amigo assentado perto da porteira.

Parei a caminhonetinha prateada, bastante surrada, precisando ser trocada, um cadinho junto dele.

“Seu Zé? Como vai as moda? Tá tudo bem com o senhor”?

E ele me respondeu, com os olhos fixos no chão cascalhento.

“Ah! não tenho do que me queixar. Tive um infartozinho sem maior “gravidez”. Agora estou me restabelecendo neste estabelecimento. Só umas coisiquinhas me apoquentam.  O mijo anda preso. Acordo de meia em  meia hora para urinar. Tenho um urinol debaixo da cama. E ele amanhece cheio pelas beiradas. Fora isso nada mais me incomoda. Também estou pela hora da morte. Penso viver alguns anos mais. Vosmecê está convidado para o meu enterro. Desde já lhe faço esse convite”.

Em verdade o amigo Zé não durou mais de cinco meses. Foi-lhe diagnosticado um câncer na próstata. Já bem adiantado. Sem a menor chance de ser curado.  Como aqueles em inicio de carreira.

Neste dia cinco de novembro, mês dedicado ao exame de próstata, dizem que novembro é azul, para o amigo Zé ele acinzentou-se de vez. Não foi por falta de conselhos. Bem que ele, e outros, poderiam viver muitos anos mais.

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