Hoje acordei ansioso por saber o resultado de um exame feito na manhã passada.
A diabetes me preocupava.
Não tenho por costume fazer exames. Passo anos sem me deixar investigar.
Confesso-me relapso como médico. Não no quesito de atender pacientes. E sim quando o paciente se trata de mim mesmo.
Em absoluto não sinto nada. Uma gripezinha marota de vez em quanto me assalta. Sou avesso a tomar remédios. A fazer exames, então, meu plano de saúde dá pulos de satisfação dado ao lucro que lhe dou.
Hoje, neste dia lindo que amanheceu, choveu durante a noite e nem percebi, ao chegar aqui logo dei de olhos naquele envelope lacrado, que indicava um número pra lá de camarada, a minha glicose mostrava menos de cem. Alguns décimos a menos. O suficiente para me manter no peso. Já que via de sempre nunca ultrapassei os oitenta.
Pra que desejar mais do que tenho? Tenho saúde a emprestar aos enfermos. Disposição nunca me faltou. Raciocínio rápido, inspiração em demasia, sensibilidade sempre me cavoucou por dentro, solidariedade talvez me falte um pouco.
Não desejo conquistar mais bens que colecionei. Tenho o bastante para viver confortavelmente. A vista não me atraiçoa. Dispenso óculos para escrever e ler.
Nesta altura da minha existência espero continuar do mesmo jeito. Acordando cedo. Depois de uma noite curta. Pretendo alongar minhas ideias. Já me minha estatura não vai se alongar mais que a tenho.
Pra que desejar mais do tenho? Já tenho quase tudo que desejaria. Talvez um único desejo me consuma. Ver meus netinhos crescidos. Acompanhá-los por mais tempo ainda.
Mas, se por acaso alguém me disser que é hora de partir, não resistirei aos designíos de Deus Pai. Que minha fé nunca me abandone. Que minha saúde continue por muitos e muitos anos.
Quisera eu continuar assim. As madrugadas me encantam. Gente simples da roça me apaixonam. Crianças ao redor de mim são meu prato predileto. Pelos velhos tenho o maior afeto e respeito. Quem viveu a vida anos a fio merece de nós não apenas compaixão e admiração como também veneração.
Pra que desejar mais do que tenho? Se a vida tem sido magnânima comigo mesmo.
Em dezembro que se avizinha estarei um ano mais velho. Embora não me sinta velho a idade diz que sim.
Caso continuar a viver da forma que vivo não tenho do que me queixar. Sé tenho a agradecer as dádivas que recebi. A inteligência de que sou dotado. A visão que me permite enxergar além das entrelinhas. A fecundidade literária que a cada manhã brota dentro de mim.
E, se por acaso me privarem de tantas bênçãos recebidas da mesma maneira estarei agradecido. Pois, olhando daqui de cima percebo, graças ao meu terceiro olho, que nem tudo que reluz é ouro. A felicidade é efêmera como um pássaro deixando o ninho.
Meus netinhos irão crescer. Pena que não poderei assistir seus voos solos por muito tempo mais. Mesmo assim me satisfaço com tudo que presenciei. A mim basta desfrutar do tempo que me resta. Que ele se alongue por muitos anos mais.
Não desejo outra coisa, senão, ter um fim digno, e terminar não num leito de hospital. E sim no leito onde durmo a cada noite. A espera de outro dia que com certeza vai ser melhor do que aquele que passou.