Pra que mais?

A ambição desmedida nos leva a indagações descabidas.

A gente nunca se satisfaz com o que angariamos nesta vida tão dispare. A maioria tem pouco, quase nada. Em contraste a outra face da moeda que tem mais do que precisa.

Assim caminha a desumanidade. Principalmente nestes tempos de pandemia. Quando o desemprego consome grande parte daquela faixa etária recém-egressa da faculdade. E engole quem justamente mais precisa trabalhar.

Como tem sido difícil viver nestes tempos hodiernos. Em muitas casas falta de tudo. Os preços sobem de elevador. Enquanto a maioria tenta subir pelas escadas, a passos claudicantes, arfando de cansaço a mercê de tanto sofrimento.

Pelas ruas se veem, a cada dia, esmolantes tentando sobreviver. Jovens não são poupados. Velhos esquecidos estendem as mãos implorando caridade. Crianças desamparadas vendem balas nos semáforos. O desemprego cresce a cada dia. Não se vê a luz ao fim do túnel.

Pra que mais? Por vezes me pergunto. Já conquistei quase tudo que gostaria. Tenho um teto pra morar. Um agasalho para me esconder do frio. Uma cama para dormir. O sol brilha forte quando acordo. De vez em quando chove. Nestes mais de setenta anos ainda tenho pernas para andar. Olhos para ver o clarume do amanhecer. Tirocínio para entender que basta pouco para viver. Capacidade de me condoer frente às adversidades do próximo. Mesmo que seja um indigente. Um esmolante qualquer.

Tenho um amigo, gente simples da roça, de nome Manuel, bem que poderia ser Joaquim, pessoinha boa, sem defeitos, fora a ausência de visão, que anda pelas estradas sem saber pra onde vai, sempre alegre, de bem com a vida, contador de piadas, pessoa amada por quem o conhece, que sempre me trás boas novas, mesmo que não sejam tantas, um dia, quando por ele passei, de volta à cidade, era um sábado esquecido nas lembranças, cumprimentei-o efusivamente.

Foi breve a nossa prosa.

Estava com pressa.

“Pra onde vai? Meu amigo? Você viu a chuva que caiu durante a noite? Dormiu bem? E a saúde? Está em dia”?

Manoelzinho me respondeu, sem abrir os olhos, já que não enxerga desde quando nasceu.

“Ah! vou pra onde a estrada me levar. Não sei. dormi como um capado gordo. Não tenho do que me preocupar. Tenho mais do que mereço. Se não enxergo a luz do sol sinto por dentro a mesma felicidade daqueles que enxergam tanto. Trabalho desde quando fui criança. Aprendi a caminhar sozinho. Se esbarro em alguma coisa que desconheço retrocedo. Não tenho medo do escuro. Já que vivo na escuridão. Pra mim tanto faz como tanto fez. Basta-me viver simplesmente. Pois sei que um dia vou morrer”.

Quando estou apoquentado com pequenas coisiquinhas por vezes perco o sono. Esquento a cabeça por quase nada.

Já vivi mais da metade da minha existência. Já enfrentei inúmeras adversidades. O que vem pela frente? Nem tento adivinhar.

Como diz o amigo Manoelzinho. Pra que mais? Se tenho tudo? O que me falta para ser feliz tento encontrar na beleza do arco íris. Ou na singeleza do singelo.

Ontem foi dia de finados. Fui ao campo santo. Depositei flores no túmulo dos meus pais.

Já que não mais os tenho por perto, faço da lembrança deles mais um motivo para não querer nada mais.

 

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