Dia de sentir saudades

Um dia me perguntaram o que, pra mim, significa este dia de amanhã.

Pra muitos mais um feriado. Pra outros um dia comum.

No meu entender, já que estou sempre a cultuar o passado, o dia dois de novembro, chuvoso, cinzento, nada mais é do que aquele dia de cultuar as pessoas queridas, que um dia nos deixaram, depois de tempos de rara felicidade, ao nosso lado.

Ao olhar a minha mão esquerda observo aqueles dois lotes vazios. Recordo-me daquela duas moradas. Uma delas, mais acima, é onde viveram meus pais. Intimamente unidos por laços de pura amizade o lote de baixo nele existia outra edificação. Ali morava meu saudoso tio. Irmão de minha não menos saudosa mãe.

Pena que o tempo passa. Os anos fogem como pássaros em voo.

Nesta manhã de começo de mês, novembro de muitas chuvas que se anunciam, nesta manhã cinzenta, depois de uma noite mal dormida, acabei me lembrando daqueles anos jamais esquecidos, de quando tinha meus pais por perto.

Foram eles que me ensinaram a entender o significado de saudade. Foram perdas inolvidáveis.

Primeiro partiu meu pai. Foi uma morte anunciada. Até mesmo de certa forma desejada.

Pois aquele homem admirado por sua competência e zelo a profissão de repente, sem anunciar ou pedir a nossa benção, caiu enfermo. E da cama não mais se levantou. Ele morreu em meus braços. E eu, impassível, como médico, nada pude fazer para atenuar-lhe o sofrimento. A não ser pranteá-lo como até hoje faço. Não me esqueço de sua pessoa. Dizem até que me pareço com ele. E o espelho não contradiz a nossa afinidade.

Anos depois foi a partida de minha querida mãe.

Ainda me lembro daquela data fatídica. Fomos juntos ao hospital onde ainda penso, até quando ignoro, estarei aqui presente, a trabalhar como médico especialista. Se bem que já trabalho menos. Ainda não aposentado espero continuar na lida por muitos anos ainda.

Minha saudosa mãezinha antes de nos deixar olhou-me fundo nos olhos e me perguntou: “meu filho, será que vou morrer”? Embora soubesse a resposta gostaria que ela fosse outra.

“A senhora se engana. Em pouco tempo estaremos juntos de novo. Naquela mesma casa. Na Rua Costa pereira 152”.

Ainda me lembro do seu velório. Foi a noite mais triste da minha existência. Apenas um cãozinho e eu passamos a noite inteira, madrugada adentro, a velar seu corpo lívido, trazendo no peito uma réstia de saudades imorredouras.

Amanhã é o dia de finados. Dia de prantear os mortos. Dia que exala saudades.

Amanhã irei ao campo santo. Levarei flores ao túmulo de meus pais. Farei uma breve oração em intenção de suas almas. Lembrar-me-ei deles com um aperto no âmago.

Aquela sepultura me inspira tanto. E como gostaria de poder abraçá-los de novo e dizer o quanto ainda os amo.

Amarei sempre.

Na certeza de que nos encontraremos, em algum lugar, pranteio-lhes como se ambos ainda estivessem presentes, ao meu lado, naquela mesma casa, agora reduzida a um lote vazio.

Dia de finados pra mim representa saudades. Não há como viver apenas no tempo presente. Se o passado faz parte da vida da gente.

Aos meus queridos esta singela homenagem. Neste dia cinzento que antecede o dia de finados.

 

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