Por vezes, durante a nossa existência, tentamos atingir nossos objetivos e eles não são alcançados, apesar de nossos esforços muitas vezes sem o sucesso pretendido.
Assim tem sido a minha passagem pela vida.
Nasci há exatos setenta e um anos. Em dezembro próximo completarei mais um ano.
Aqui cheguei, nesta cidade que considero meu berço, muito embora tenha nascido em Boa Esperança, cidade imortalizada por Lamartine Babo em sua Serra da Boa Esperança esperança que encerra, no coração do Brasil um punhado de terra, no coração de quem vai, no coração de quem vem, serra da boa esperança meu ultimo bem…, aos cinco anos de idade.
Foi naquela rua que daqui se avista, pelos fundos, naquela casa hoje reduzida a um lote vazio, que comecei a caminhar sozinho. Sempre guiado pelas mãos segura dos meus pais.
Naqueles verdes anos tentava me equilibrar numa bicicletinha de rodinhas amarelas. Presente de um natal que passou. E quantos galos na testa colecionei. Quantas saudades imorredouras foram soterradas em minhas lembranças eternas.
Por mais que tentasse me livrar das saudades elas ainda cavoucam minha alma sensível. Não consigo me desvencilhar do passado. Por mais que tente não tenho como me apartar dele.
Por mais que caminhe no tempo, por mais que os anos passem, guardo dentro de mim recordações que me acompanham até quando minha existência perdurar.
Se bem que tente viver o presente, inconsequentemente me transporto ao passado. Naqueles anos doirados, saudosas lembranças de quando fui criança, a espera de um Papai Noel imaginário, que só tempos depois descobri que ele era meu pai.
Por mais que tente não consigo me reportar ao tempo presente sem me lembrar do que passou. Antigamente.
Aquele cãozinho peludo, de nome Rebel, morto em uma briga de rua tentando me proteger dos dentes afiados de outro cão, bem maior, até hoje tenho comigo uma verdadeira adoração pelos cães. São eles os melhores amigos. Confiáveis, fiéis, de uma profunda meiguice no olhar, sinceros, tento, e por vezes não consigo, me apartar daqueles amigos, sempre tive cães ao meu redor.
Por mais que tente, retente, não passo um dia sequer sem ver meus netinhos. Através deles me rejuvenesço. Esqueço-me da minha verdadeira idade. Volto ao passado através de suas perninhas serelepes. Corro, brinco de pique esconde, faço travessuras, sirvo-lhes de montaria como uma cavalgadura xucra.
Por mais que tentasse voltar nos anos o espelho, verdadeiro alcagueta, me diz: “olha pra sua cara velho ancião. Pra onde foram suas melenas topetudas? Onde se esconde sua testa antes recoberta por cabelos longos? Veja se te enxerga! Você já ultrapassou a serra. Pouco lhe resta de vida. Se prepare para viver a outra”.
E eu tento não considerar os seus dizeres. Finjo que estou na melhor idade. Que em verdade verdadeiramente estou.
Por mais que tente dizer a mim mesmo que tenho muitos anos pela frente não sei o que me espera logo adiante.
Hoje não tenho do que me queixar. Acabei fazendo exames, que não fazia há tempos, e eles mostraram que estou em perfeita forma.
Faço tudo que fazia dantes. E assim pretendo continuar.
E, se por acaso alguma enfermidade tentar se apoderar de mim, a escorraçarei para bem longe.
E não podem dizer que não tentei. Já que a mocidade se foi, quando o tempo passar, e continuar passando, tentarei, com as forças e a imaginação que ainda tenho, pensar que sou aquela criança, brincando naquela mesma rua que daqui se avista pelos fundos, naquela casa hoje reduzida a um lote vazio.