Como seria o enterro da felicidade?
Seria num caixão coberto de flores? Com ou sem séquito de acompanhamento?
Seria uma cerimônia simplesinha? Um padre rezaria uma missa em seu louvor?
Parentes chorosos derramariam lágrimas durante o velório? Ou naquela sala vazia só restariam alguns cães uivando de saudade da tal felicidade. Será que ela em verdade morreu?
Quem assiste à televisão, nestes tempos de pandemia, onde apenas são noticiadas tragédias, luto fechado, pessoas reclamando disso ou daqueloutro, os preços em ascensão, numa subida desvairada, fome, miséria, crise que se alastra como erva daninha, num canteiro de margaridas, reclamações contínuas por isso ou aquilo, assaltos, furtos sem maiores consequências, não se fala noutra coisa, até parece que o mundo gira no entorno de catástrofes, como se a verdadeira felicidade estivesse sepulta numa cova rasa, vendo apenas lástimas neste entorno cruel que nos massacra a cada dia.
Até parece que a felicidade faleceu. Por onde andaria ela? A pobre deve estar escondida onde não pode ser encontrada. Quiçá numa rocinha encantada? Por detrás da serra que daqui se avista. Num lugar imaginário, onde pássaros ainda cantam.
Será que esse lugar existe? Ou seria apenas mais um devaneio meu?
Confesso que a felicidade anda escassa. Quase não a encontramos mais.
O cotidiano tem sido cruel. O desemprego em massa assusta quem anda pelas ruas. De vez em quando me pergunto. Como será o natal que se avizinha?
Não tenho dúvidas a questionar. Em verdade a realidade assusta. Famílias inteiras morando nas ruas. Em barracas improvisadas. Passando fome. Mendigando nos semáforos. Tirando o alimento no lixo.
Até quando? Pergunto-me. Iremos tolerar esta verdade nua e crua?
Hoje, nesta quinta-feira, quase outubro fechando os olhos, depois de uma noite assistindo a televisão, usando ou não o controle remoto, só tenho visto, seja em qualquer canal, a tristeza imperando. Pessoas se lamentando. Como se a felicidade fosse banida em todo o território nacional.
Por mais que tente, que invente, devaneie, não tenho encontrado a tal felicidade em algum lar sequer.
Será que ela teve um sepultamento decente? Ou foi enterrada como indigente. Sem ao menos uma coroa de flores. Sem lágrimas chorosas de algum parente. Sem ao menos um séquito de simpatizantes.
Por onde anda a tal felicidade?
A derradeira noticia que tive dela foi que a pobre não teve um final feliz.
Agora jaz solitária numa cova esquecida num sepulcro qualquer. Sem ao menos uma lápide inspirada que diga qual foi sua causa mortis.
Já eu bem sei que a felicidade morreu de tristeza. Abandonada por todos que não tiveram o prazer de conhecê-la.