Ainda lhe restava uma esperança…

E ainda dizem que ela é a última que morre.

Muitas vezes se morre antes de atingir o objetivo desejado.

Assim aconteceu a um velho amigo.

Tião, apelidado de Tiãozinho Vagalume, pois vivia, em criança, correndo atrás destes bichinhos, a fim de aprisioná-los numa caixinha de fósforo vazia, em noites de lua cheia, e depois os soltava para ver aquelas luzinhas piscantes iluminarem a noite escura, cresceu, não muito, sonhando um dia se mudar pra cidade, pois naquela rocinha perdida num lugar ermo não poderia jamais conquistar seu devaneio de um dia ser doutor.

A escolinha, escondida no alto do morro, um dia se mudou pra cidade.

Era ali que o garoto, de olhinhos claros, aprendeu as primeiras letras. Era bom aluno, aplicado, sempre pontual, cumpridor dos seus deveres, reconhecido pelos professores como sendo alguém que iria mais longe, muito além daquela serra, que se deixava ver na linha do horizonte, esfumaçada em dias de cerração intensa, clarinha como as asas de uma borboleta azul.

Passaram-se os anos. Tudo parecia que os sonhos do menino Tiãozinho iriam se concretizar.

Graças a um tio por parte do pai Tiãozinho, aos quinze anos, foi morar numa cidade de mais recursos do que aquela próxima a sua rocinha.

Ali recomeçou os estudos. Mais uma vez se destacou entre os demais.

Era tempo de vestibular.

Tiãozinho passava horas a fio  debruçado entre livros. Dois anos depois, de muito esforço e dedicação, foi aprovado numa faculdade particular. Só de mensalidade tinha de pagar mais de dois mil reais. Fora os livros, que custavam os olhos da cara. Mesmo assim Tiãozinho não desistiu.

Desdobrava-se entre o trabalho numa padaria durante as noites. Acordava cedo. Passava o dia inteiro na faculdade.

Consegui se formar depois de seis longos anos. Foram anos duros.  De muito trabalho e estudos.

Mas o agora doutor Sebastião gostaria de ir mais adiante. Uma especialidade cirúrgica o atraia. Desde os tempos de anatomia amava dissecar cadáveres.

Graças ao seu empenho e dedicação, demonstrado entre plantões intermináveis em hospitais da rede pública, percebendo ganhos irrisórios, enfim foi aceito numa residência de cirurgia geral.

Ali aprendeu a operar com maestria.  Não relutava em passar as noites  nas salas de cirurgia.

Até que, numa noite escura, chovia a encher ribeiros, eis que apareceu naquele pronto atendimento modesto um paciente vítima de um tiro no abdome.

Doutor Sebastião foi chamado a intervir naquela pobre alma esvaindo-se em sangue.

Foram mais de cinco horas tentando tratar aquele ferimento grave.  O paciente não resistiu. Acabou indo a óbito.

A família daquele jovem moribundo, insatisfeita com o resultado da cirurgia, acabou entrando com um processo contra o jovem médico.

E pasmem! Acabou ganhando a causa.

O jovem doutor, em início de carreira, foi intimado a pagar mais de cem mil reais.

Além da multa teve seu diploma cassado.

Naquele dia, do qual se lembra sem saudades, doutor Sebastião viu encerrada a sua breve carreira tão promissora.

A esperança que ainda lhe restava foi levada pela interpretação leviana de uma entidade que deveria proteger a classe.  No entanto, na maioria das vezes a sociedade joga-nos aos ombros culpa maior que não temos.

 

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