“Enfim, criei coragem”

Coragem significa além de bravura, intrepidez, firmeza de espirito frente a situações de perigo, e, em minha opinião, tomar-se de inusitado destemor quando as coisas não vão nada bem.

Viver em nossos dias deve-se tomar de incontida coragem. Frente às adversidades que se interpõem em nosso caminho.

Ontem mesmo, ao descer a rua em direção ao clube onde sempre frequento, ao cair das tardes, deparei-me com uma cena incomum.

O normal era ver saltimbancos trapalhões, fazendo malabares defronte ao semáforo, a espera de algumas migalhas a serem doadas pelos motoristas. Alguns deles, de vidros abertos, condoídos da situação aflitiva daqueles jovens, perdidos em sua mocidade, deixavam alguns trocados na palma das mãos, moedas, vinténs, até mesmo algumas notas modestas, já que nos dias de agora o dinheiro anda curto para todos os seguimentos da sociedade. Salvo alguns endinheirados. Citando como exemplos políticos que se locupletam do erário público, tão mal distribuído neste país continental.

Ontem a cena foi diferente.

Um jovem portava um cartaz com os seguintes dizeres: “venho da Venezuela. Minha família passa fome. Por favor, fecha ele, deem-me algo que possa amenizar meu sofrimento”.

Senti pena do pobre coitado. Da mesma forma, como não tinha nos bolsos nada pra dar a ele, admirei-lhe a coragem. É preciso além de coragem muita força para passar horas a fio, naquele cruzamento de ruas, a mendigar caridade dos passantes. Infelizmente essa cena tornou-se bastante comum nestes tempos de pandemia. Quando uma legião de desempregados se forma a porta dos bancos. A espera das benesses de um governo que tenta e não consegue se acertar.

Hoje foi dia de fazer exames. Há tempos não me deixava examinar. Como médico deveria dar o exemplo. Foi preciso coragem para enfrentar aquela agulha espetada na dobra do meu braço direito.

Foi quando me lembrei de um velho amigo. Seu nome é Zé Antônio.

Quase sempre me deparo com sua pessoinha simpática assentada numa laje de pedra dura. Logo a porta de sua casa. Numa rocinha pertinho da minha.

Na semana passada soube noticias dele.

Seu Zé, depois de um mal súbito, teve de ser levado às pressas para a Santa Casa. Este mesmo hospital que em breve vai ser ampliado.

Numa visita rápida, antes que ele tivesse alta, vimo-nos cara a cara.

Ele, como sempre, mostrava na face um sorriso aberto. Pilheriou comigo.

“O que vosmecê está fazendo aqui”?

“Sou doutor. Esta é a minha casa. Ocê é a visita. Embora não o tenha convidado”.

“Ah”! Resmungou o resmungão.

“Quer saber? Não tenho nadica de nada. É que criei coragem para passar uns dias de férias. Bem que precisava”.

Falamos de tudo um cadinho. Botamos a prosa em dia.

Já hoje, depois de sentir uma espetadinha de nada na curva do braço, a espera dos resultados dos exames, não é que enfim criei coragem?

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