A vacinação prodigue a braços desnudos.
Em pouco tempo acredito que todos os brasileiros serão vacinados. E a pandemia vai fazer parte de favas contadas. Erradicada em todo território nacional.
Pena que não se possa vacinar contra maus tratos. Contra desatinos. Contra contravenção. Contra tudo que nos faz envergonhar perante o mundo inteiro. Vacinar-se contra a falta de ilusão deveria ser factível. Pois as ilusões são fundamentais, tanto quanto os sonhos, desde quando a gente nasce até a porta do caixão.
Um dia me perguntaram: “doutor. É possível vacinar-se contra esta ou aqueloutra doença? Por exemplo, Hpv e outras patologias ligadas ao sexo”?
De pronto respondi um sim. Pena que ainda não descobriram a vacina contra a depressão. Uma tristeza enorme que acomete o âmago de quem sofre. Sofrer por amor até que é bom.
Ontem foi meu dia de receber a terceira dose. Até agora tenho o braço pesado. Uma dorzinha renitente me tem incomodado. Mas valeu a pena aquela injeção.
Espero ter cumprido o meu papel. Deixo aqui meu exemplo como cidadão. Quem diz que vacina é mera ilusão deve ser considerado equivocado. Ou mero falastrão.
Na derradeira vez que fui ter a minha rocinha, de onde trago causos e prejuízos, encontrei-me com um velho amigo.
Sô Zé Genuíno, um legitimo e genuíno morador daquelas plagas, se preparava para dormir.
Era ainda cedo. Por volta das cinco e meia de uma tarde fresca. A noite passada choveu um bom bocado. Pelo seu ar de contentamento podia-se perceber uma felicidade que extrapolava aquele bocejo de alegria incontida.
Falamos de tudo um cadinho. Das mortes que infelizmente tem acontecido. Da falta de amigos que se mudaram pro andar de cima. Comentamos sobre banalidades. Aquela caboclinha de pernas grossas e sorriso farto não foi deixada de lado. Pronde ela foi? Deveras andava sumida.
Antes da despedida ainda comentei com Sô Zé, que na manhã de ontem recebi minha terceira dose da vacina. Que estou completamente imunizado. Salvo algum entrevero nunca mais vou contrair a tal virose.
Sô Zé, de olhos esbugalhados, me disse que ontem mesmo, na mesa de um bar, acabou tomando todas. Na primeira dose conseguiu fazer o quatro. Na segunda mal se continha em pé. Já na terceira acabou caindo pro lado. Só não quebrou as cadeiras por pura sorte.
Quando lhe ofereceram a terceira dose acabou dormindo ali mesmo. Acordou sonhando ter sido vacinado.
“Sô Zé! Estou falando sobre a terceira dose da vacina. Não de pinga. Como o senhor tá acostumado. Cria vergonha meu amigo. Vai logo a um posto de saúde próximo. Antes que a tal corona lhe pegue pelo cangote. E o leve para a sepultura.”
Creio que ele tenha entendido a minha mensagem. Não que uma canjibrina não seja do meu aprecio. De vez em quando tomo uma. Mas depois de receber a terceira dose. Pura precaução. Entendido.