Hoje amanheceu um dia esplendoroso.
Nem frio ao exagero. Nem quente ao destempero.
Ao deixar meu apartamento, antes das seis e meia, o chão molhado indicava que havia chovido um cadinho durante a noite.
Agora, prestes a completar seis e meia, nuvens cinzentas ofuscam o brilho do sol. Tomara a chuva continue. É tempo de plantar. A terra arada está pronta a receber as sementes. A pastaria ressequida ressente-se da falta de chuva.
Nas bandas da minha roça, pra onde vou sempre aos finais de semana, não tenho parado por lá mais que algumas horas, na próxima pretendo ali pernoitar, existe um vizinho de cerca, senhor miudinho, de nome Eusébio, cabelos começando a branquear, pelo qual tenho a maior simpatia.
Foi ele quem me ensinou quase tudo que sei da vida no campo. Que vaca não dá leite. É preciso tirar. E não fica barato o sustento das vacas. Elas comem a se fartar. Vaca mal alimentada não produz quase nada. E não dá conta de criar os bezerros que morrem de inanição.
Que o preço do leite quase não compensa o trabalhão. Ora sobe. Ora despenca. Ao contrário do preço da ração. Na entressafra o capim seca. A chuva escasseia. E a pobre vaca vai pro brejo. Os carrapatos se locupletam do seu sangue. E quando chove demasiado? O barro faz atolar as rodas do caminhão leiteiro. Que não consegue subir aquele morrão.
O amigo Eusébio, apelidado Tiquinho de Nada, pois ele assim se expressa, quase sempre.
Sempre que passo por ele, assentado àquele banquinho tosco, a hora de tirar leite, por vezes a vaca urina. E o pobre tem de se livrar das moscas. Que infernizam o seu curral.
Quando chove as goteiras aumentam os seus problemas. Pois a água da chuva entra latão adentro. E o leite é rejeitado pelo laticínio. Exigente com a qualidade do produto. Pelo qual pagam uma mixaria.
Mesmo assim Eusébio sorri frente às adversidades. Pra ele não tem tempo ruim.
Caso o tirassem dali, e o levassem pra cidade, não sei que seria dele. Por certo mais um infeliz.
Naquele sábado, que a folhinha engoliu, em visita a minha rocinha, no lombo do meu cavalinho Theo, fui fazer uma visita ao amigo Eusébio.
Era por volta das seis e meia de uma tarde fresca. Havia chovido um cadinho a noite passada. Nada que fizesse escorrer a enxurrada. Nem que fosse o bastante para começar o plantio.
Naquele nosso breve colóquio, já estava prestes a voltar pra casa, troquei uma dezena de palavras com o amigo Eusébio.
Falamos de um tempo passado. De quando nos conhecemos. Das catiras das quais levei manta. Dos amigos que já passaram ao outro lado da vida.
Comentei, an passant, da falta de chuvas naquele quase final de ano. O calor que tem feito não escapou dos comentários.
Antes de nos despedirmos, ainda escutei da boca do amigo Eusébio essa fala que passo adiante: “ontem choveu um tiquinho de nada. mais tarde deve chover novamente. Assim espero. Que esse tiquinho dê conta de molhar a terra seca. Prontinha para receber as sementes de milho. Já que a terra está preparada”.
E não é que a chuva caiu? Foi um ticão enorme. Muito maior que o tiquinho que sempre fala o amigo Eusébio.