Remar contra a corrente faz nossos braços cansarem.
Melhor navegar ao favor dela. E ir remando, lentamente, até o rio encontrar o mar.
A cada manhã, ao sol se abrir, ao chegar aqui, na minha oficina de trabalho, para dar vazão aos meus pensamentos que avoam, escrever é quase uma obstinação, contra a qual não desejo lutar, simplesmente me deixo levar, observo, num cantinho qualquer, debaixo da estante onde guardo meus pertences, livros, fotografias antigas que ensejam saudades, um montinho de poeira fininha, sinal inequívoco de que carunchos resistem as minhas tentativas infrutíferas de combatê-los, pois eles sempre voltam, pois a madeira de que foi feita a minha estante, há tantos anos passados, tornou-se um prato cheio as suas comilanças.
Agora não mais tento mudar o seu comportamento. Simplesmente acompanho-lhes o crescimento. Já que a minha estante continua firme a alimentá-los.
Hoje, neste primeiro de outubro, dia que amanheceu radiante, com o sol a brilhar, diz-me o calendário que hoje se comemora o dia do idoso.
Foi quando pensei em escrever este texto.
De nada adianta tentar deter o caminhar dos anos. Eles vêm caminhando, mesmo contra a nossa vontade, a cada dia que passa, deixando distante a nossa infância, ai que saudade dos tempos pretéritos.
Da mesma maneira de nada adianta tentar conter o ímpeto da saudade que nos cavouca a intimidade. A cada ano que passa, até mesmo a uva vira passa.
De nada adianta tentar reverter a marcha inclemente do tempo. Ele vem sorrateiro. Trazendo no seu rastro saudade dos que se foram. Até quando nos encontraremos de novo.
De pouco adianta chorar o leite derramado. Pois devemos nos contentar com aquilo que a vida nos presenteou. A sofreguidão dos anos é a pura realidade. Experimente perguntar ao espelho se você conserva no seu rosto os mesmos traços juvenis de quando era ainda um jovenzinho em busca dos seus sonhos. Ele, por certo vai responder: “não há como vencer os anos. A cada dia que passa deixamos pra trás a juventude, a primeira infância, doces lembranças do que passou. E não volta jamais”.
Neste primeiro de outubro, dia quente, ensolarado, pensei em escrever algo sobre o idoso. Embora já tenha ultrapassado a melhor idade, ainda me sinto jovem., apesar de carregar às costas mais de setenta anos.
Agora cedo, o relógio assinala antes das sete, um cadinho menos, acordei pensando no caminhar da vida.
Ela escorre lentamente sem que percebamos o quanto de tempo ainda teremos pela frente.
E de nada adianta pensar. Melhor viver na ilusão de que a saúde nunca vai nos abandonar. Certo que nunca seremos perenes como aquela árvore mais que centenária. Como o planeta em que vivemos. Como o amor que nossa mãe sentiu pela nossa pessoinha, naquele dia lindo quando pela primeira vez percebemos a luz do dia.
De nada adianta tentar lutar contra o envelhecimento. Melhor nos aquietarmos. Deixar o tempo passar. Sem ao menos pensar no dia em que iremos partir. Desta vida que nos brinda, a cada dia, com o sol que nasce, com a chuva que cai paulatinamente, com o caminhar frenético do tempo que não para.
Hoje é dia do idoso. Outubro tem começo. E logo terá fim. Em poucos dias o ano termina.
Quase sempre, quando aqui chego, deparo-me com um montinho de poeira fina aos pés da minha estante. Cansei de combatê-los. Carunchos e nós somos quase iguais. A velhice nada mais é do que deixar os carunchos tentarem se alimentar de nossos restos mortais.
Daí o meu desapego aos bens materiais. Em boa hora iremos partir. Se pudesse escolher que dia seria. Não teria dúvidas. O meu passamento, se pudesse dizer, com certeza, seria num dia trinta de fevereiro. Numa tarde amena. Num dia ainda não escrito.
De nada adianta tentar contradizer a marcha inclemente do tempo. Ele nos escorre por entre os dedos. Com a velocidade do vento. Ou com a calmaria deste dia lindo dia primeiro de outubro. Dia quando se celebra o dia do idoso. Embora ainda sinta em mim a juventude dizendo que sim.