Melancólico final de mês

Setembro se despede pachorrentamente.

Quase nada de chuva. Uma seca inclemente fazia a pastaria secar.

O fundo do açude, única fonte de água, onde Zé Benedito criava peixinhos, alevinos ali engordavam, para, uma vez tilapias graúdas seriam vendidas na feira da cidade.

Era aquela a única fonte de sustento daquela família enorme.  De muitas bocas famintas a tratar.

Zé, a cada manhã, olhava pro céu, bem cedo, quase madrugada, e pedia ao seu santinho protetor que, por favor, intercedesse por ele, e fizesse a água da chuva despencar. Que fossem algumas gotinhas apenas. O suficiente para que a água que enchia o pequeno açude de novo voltasse. Era o que pedia, de joelhos, contrito, ao santinho no qual acreditava desde quando menino.

Mas setembro terminou seco. Uma chuvinha aqui, outra acolá, insuficiente para de novo fazer brotar o capim. Que, a cada momento pegava fogo. E incendiava-lhe não somente o pasto, assim como suas pretensões de de novo voltar a chover.

O pobre e infeliz Benedito não tinha mais motivos para se alegrar. Uma tristeza enorme cavoucava-lhe o peito. Uma angústia desmesurada indicava um começo de depressão.

Assim passavam os dias. E nada de a chuva voltar. Faltava água até para beber. Banho, então, nem pensar.

Naquele final de setembro o pobre pai de família pensou em se mudar. Juntou os poucos pertences que possuía. Tudo foi ajeitado num baú guardado num quartinho nunca antes usado.

E partiu rumo à cidade.

Ali encontrou um cenário desolador. Desempregados faziam fila à porta dos bancos. À espera de alguns trocados, quantia mixa, que mal dava para comprar uma cesta básica.

Zé Benedito não desanimou. Enfrentava aquele torvelinho de dificuldades com a mesma coragem que movia seu coração em tempos difíceis, na rocinha que tanto amava.

Uma semana se passou. Embora acordasse cedo, saía em busca de trabalho, e sempre encontrava a mesma resposta da derradeira vez. “Volte depois, quem sabe na semana próxima você encontre o que deseja”.

E ele voltava. E mais uma vez não encontrava o que procurava.

A família do pobre Zé passava fome. Os quatro filhos menores não viam a hora de voltar à escola. Mas a escolinha municipal permanecia de portas fechadas. A pandemia impedia todo mundo de retornar às aulas presenciais.

Zé Benedito não desanimava. Persistia estoicamente a correr atrás de seus ideais.

Setembro chegou ao seu epílogo.

Naquela manhã de quinta-feira, último dia do mês, Zé acordou sentindo uma dor profunda no peito. Foi internado, por intercessão de um vizinho, num hospital público.

Ali passou semanas a fio tentando conseguir uma transferência a outro lugar onde pudesse receber um tratamento especializado. Mas foram debaldes as suas tentativas.

Finou-se setembro. Outubro veio a seguir.

E nada de o pobre desinfeliz Zé Benedito conseguir seu intento. Terminou o mês pior ainda que começou. Sem emprego. Sem saúde. Sem a menor perspectiva de melhorar a sua situação calamitosa.

Hoje, pela manhã, antes das seis, neste derradeiro dia de setembro, sem sinal de chuva no alto, soube noticias do pobre Zé.

Ele foi sepultado numa cova escura. Sem direito a velório. Ou algum acompanhamento.

Setembro, agora prestes a ser sepultado, ainda escorrem lágrimas pelo canto dos olhos dos filhos de Zé.

Mais um melancólico final de mês. Neste imenso pais tão bonito. Que tanta coisa boa poderia oferecer aos seus filhos. E, em contrapartida fecha os olhos, ou finge que não enxerga, a extrema pobreza que ainda consome tantas famílias país afora. Sem a mínima chance de sobreviver.

 

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