A capadura do Zé Bridão

Muitos confundem a interrupção da fertilidade, no sexo masculino, quando não se deseja mais filhos, com castração, que consiste em remover os dois testículos, em outra intenção.

A primeira é uma operação simplesinha, realizada na própria clínica do urologista, sob anestesia local, que consiste na ligação dos canais deferentes, que se escondem na bolsa escrotal, um de cada lado, cirurgia que pode ser revertida, em tempo hábil, melhor que não se demore muito.

Já a segunda requer internação. A retirada dos testículos, pares, que na roça se conhece por capação, ou equivalente, segundo um amigo meu ele prefere capadura, pois está acostumado a fazer na porcada em véspera de Natal, é indicada para tentar conter a produção do hormônio masculino, de nome testosterona, que faz com que o câncer na próstata continue a avançar. Levando ao óbito em tempo curto.

No dia de hoje, quase setembro finito, me lembrei de uma pessoinha querida, bastante conhecida nos arrabaldes rurícolas, por encher o mundo de rebentos.

Aos menos de dezoito anos Zezinho, jovenzinho sem parança, apelidado de Zé Bridão, pois cavalo inteiro não para nem com freio apertado na boca, irrequieto como eu fui, já colecionava mais de dez filhotes. Cada um com uma mulher.

Sua avozinha querida, preocupada com o destino do neto, seu primeiro, e único, um dia, era sexta-feira, de um mês esquecido nas lembranças, usou o telefone andejo para saber se eu poderia fazer uma ligadura naquela pessoinha impura, pois ele não emendava, não tinha parança em semear filhos, nestes tempos de vacas magras.

Eu a ela respondi que merecia uma conversa entre nós dois. Que seria preciso marcar uma consulta. Para saber razão de tal operação tão prematura. Já que o tal Zezinho Bridão contava com apenas e tão somente dezoito anos.

Levou um tempão para que o tal mocinho comparecesse ao meu consultório. Tudo aconteceu depois de várias tentativas malogradas de tentar convencê-lo a fazer a capadura.

Ele entrou aqui ressabiado. Escondia a carinha lambida por debaixo de um bonezinho enfeitado com as cores do Cruzeiro futebol clube.

Depois de explicar-lhe, à exaustão, detalhe por detalhe da operação, que ela não doía quase nadinha de nada, de dizer ao tal mocinho que após trinta dias ele deveria fazer um exame do líquido seminal, para comprovar a infertilidade, que não deveria andar de moto por cerca de uma semana inteira, abster-se de fazer sexo desprotegido até que o exame mostrasse infertilidade irreversível, ele me olhou de rabo de olho, e disse: “doutor. O senhor me garante que não vou brochar? Que vou continuar a namorar minhas queridinhas pelo tempo que quiser? E se alguma delas me disser que o filho é meu? O que vou dizer a elas”?

Depois de muitos argumentos, prós e contras, de garantir que a sua capacidade de não gerar filhos apenas vai ser mostrada depois do exame feito, que a ereção continua ainda melhor, Zezinho Bridão acabou concordando com a capação.

No dia marcado ele não compareceu. Alegou falta de tempo. Não de coragem.

A sua avozinha querida já havia pago a importância acertada entre nós. E não havia como retroceder.

Marcamos outra data. Foi no mês passado.

E ele compareceu, contrariado, acompanhado por um tio parrudo. E não é que ele veio à laço? Com um enorme bridão atado a sua boca irrequieta. Foi preciso amordaçá-lo para não chorar de arrependimento.

Ainda me lembro de suas últimas palavras ao final do procedimento, que não durou mais de quinze minutos.

“Seu doutor. Se, por acaso, aparecer mais um filho meu, vou dizer que é teu”.

Tive de assinar um termo de compromisso de adoção. Já que eu também já fiz a capação há tempos idos. Entendam melhor. Fui vasectomizado.

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