Dia sim. Noutro não

Não chovia desde o ano passado.

O céu azul, o sol a queimar a terra, a seca mostrava os dentes raivosa.

O inverno teve fim. E a quentura do ar fazia secar-nos os olhos.

Eis que entra a primavera. Quase outro ano se anunciava. E cadê a chuva? Era uma pergunta ainda sem resposta.

Era quase tempo de plantio. A terra já estava preparada para receber as sementes. Se não chover em outubro, que quase chega, seria um Deus nos acuda.

Seu Zé, apelidado de Zé da Foice, já que era mestre no seu manejo, a cada manhã olhava pro céu, procurando nuvens cinzentas, que em verdade teimavam em não aparecer.

A azulice predominava. Quando o relógio assinalava cinco da madrugada já estava uma quentura de fazer diabo ligar o ar condicionado.

A temperatura oscilava entre vinte e nove graus, pela manhã, e saltava para quase quarenta, um cadinho mais. No decorrer da tarde.

Não havia quem suportasse tanto calor. A água da mina secou faz tempo. O pobre riachinho exibia rachaduras em seu fundo pedregoso.

Nunca se viu um ano como aquele. O calor estava insuportável.

Naquela manhã de sábado Seu Zé sonhou com uma chuva mansa. Pena que foi apenas sonho. E nada mais.

Como de costume acordou ao cantar do galo. Passou uma aguinha fresca na cara adormecida.  Foi ter ao curral. Ali teve uma surpresa desagradável. A melhor vaca, aquela que enchia dois baldes, não apareceu naquele dia. Depois de muita procura acabou encontrando-a atolada num brejo seco. Seus olhos pediam socorro. Foi preciso recorrer à ajuda de um vizinho para retirá-la daquele barro viscoso. Pena que a Braúna não suportou tanta desventura. E a pobre estava de bezerro novo.

Mais um dia seco na vida do pobre homem do campo. Chuva que é bom nem sinal.

Foi naquele mesmo sábado que me encontrei com ele. Seu Zé estava tentando picar um capim seco para alimentar a vacada. Estava desolado o pobre coitado.

Tentei animá-lo dizendo que a chuva não iria tardar muito. Segundo as previsões da meteorologia na semana entrante iria chover.

A chuva tarda mais não falha. Em outubro próximo a água vai despencar do alto.

Naquele nosso breve colóquio falamos de tudo um pouco. Ele só escutava. Enquanto eu matraqueava.

“Seu Zé. Não se amofine. Todo ano é assim. Um chove a encher rios de água. Noutros a seca impera. Não mais tardar amanhã, ou depois de outro amanhã, vai chover novamente. Não se desespere. Deus tarda mais não falha. Na cidade falta água em todos os cantos. Tem gente que toma banho de canequinha. Não tem água nem pra cozinhar. A grama do jardim secou faz tempo. A conta da água mesmo assim chega sem parar. Banho que é bom, dia sim, noutro não. E que calorão tem feito. Oxalá a chuva não demora a chegar”.

Foi quando Seu Zé me respondeu. Meio contrariado. Emburrado, sem querer me afrontar, acabou dizendo: “banho aqui, só se for quando a chuva voltar. Dia sim, quando Deus mandar”.

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