Bendita inocência de uma criança.
Quando meninos, bem novinhos, acreditávamos em um Papai que pra gente existia. O bom velhinho, naquela noite mágica, era Natal, chegava do polo norte guiando um trenó de renas aladas, recheado de presentes, que tinham endereço certo. Pois a gente, meninos crentes, escrevíamos cartinhas ao tal velhinho. E ele não se equivocava. E chegava todo sorridente às moradias das criancinhas, com aquele sorriso fazendo hoho, com a sua barba branca, um tanto obeso. Até hoje não sei como ele passava por aquelas chaminés estreitas, onde mal cabia um passarinho que ali fazia seu ninho.
Tempos se passaram. As crianças, que pena, cresceram. Deixaram a inocência de lado. Passaram a acreditar na dura realidade. E de meninos ingênuos acabaram descobrindo que a vida não é um mar de rosa. E que toda rosa tem espinhos.
Conheço um menino, nascido e crescido na roça, de nome Toninho.
Eu o conheci quando ele contava com cinco aninhos. Espichadinho, magricela, olhinhos claros como os da mãe, puxou a ela em quase tudo, até mesmo na fidalguia daquela senhora dama.
Toninho, desde tenra idade, acostumou-se a ajudar ao pai nas tarefas da roça. E não regateava serviço. Era pau pra toda obra. Aos dez já era capaz de ordenhar a vacada. Tirava leite assentado àquele banquinho tosco. Feito de restos de tábuas.
Toninho, ainda me lembro daquele dia, era quase noite, ameaçava uma tempestade. E quando ele olhou pro céu, viu relâmpagos riscarem de cima abaixo, e disse, entre deslumbrado e incrédulo, a sua mãezinha, temente do que estava acontecendo: “mãe! Tá dando choque no céu”!
E na manhã seguinte desabou uma aguaceira, santa chuva criadeira, que faz enverdecer a pastaria, fecunda a terra, e faz brotar as sementes, engordar a roça de milho. Precioso alimento às vacas e suas crias.
Toninho cresceu. Infelizmente. Deixou de ser criança ainda cedo.
Aos doze anos perdeu os pais. Foi numa noite fatídica quando tudo aconteceu. Dizem que após a tempestade vem a bonança.
Mas não foi bem aquilo que sucedeu. A chuva não parou de cair. E ela veio em saraivadas. O vento zunia. A casinha tosca não resistiu. Tudo acabou soterrado num monte de lama. Toninho amanheceu atolado num amontoado de barro grudento. Foi quando teve a noticia trágica da morte dos pais.
Desde então Toninho teve de enfrentar a dureza da vida. Sozinho viu-se a frente do próprio destino.
Não mais menino de repente se viu adulto. Aos menos de quinze anos passou a ser o dono dele mesmo.
A partir de então tudo mudou na vida daquele não mais menino.
Feito adulto prematuramente Toninho não esmoreceu. Passou de criança inocente a jovem que ainda acreditava em Papai Noel.
Mas a vida ensinou que nem tudo são rosas num mar recheado de espinhos. As dificuldades começaram a aparecer.
A seca, naquele ano, veio forte. O tempo de plantar foi postergado. As vacas emagreciam à costelas vistas. O preço do leite despencou.
Não havia como viver da terra. Toninho teve de se mudar pra cidade. Era ainda jovem. Se bem com todas as responsabilidades de um adulto.
Ali, naquele cenário hostil, Toninho de repente se viu em dificuldades. Não tinha estudos. Não teve tempo de frequentar a escola.
Numa noite malograda, ainda se lembra, com lágrimas nos olhos, de quando estava num lugar errado, numa hora equivocada. Sem querer acabou participando de um assalto a banco. Foi preso sem culpa no cartório.
Foi a primeira vez que viu o sol nascer quadrado. Permaneceu preso por longos trinta dias.
Aos vinte anos deixou o presidio. Jurou a si mesmo nunca mais voltar.
Infelizmente não foi o que aconteceu. Por falta de emprego, por puro capricho do destino, voltou à cadeia. Por tempo ignorado.
Deixou aquele catre imundo sonhando com uma vida melhor. A partir de então Toninho nunca mais foi o mesmo. Foi perdida a inocência daquele não mais menino.