“Doutor. Pra mim há muito tempo jornal perdeu a serventia”

Hoje, e em dias anteriores, como de costume, antes de deixar a casa, passo os olhos no que diz a televisão.

Os noticiários são sempre os mesmos.

A tal pandemia que nunca termina. As brigas e confusões entre senadores e deputados. Naquelas querelas intermináveis. A gente não sabe quem tem razão. A corrupção que nos enxovalha a dignidade. A crise que se instalou no país inteiro. A pobreza que se alastra como fogo em capim seco. Os preços que sobem a galope. Em contrapartida aos baixos salários que mal chegam ao meio do mês. A tentativa de desestabilizar a economia. Pior não tem como ficar. O preço do gás de cozinha que sobe a cada semana.  E o da gasolina que sobe como a pipa empinada pelo menino em dia de ventania.

Só noticias ruins. As boas, se elas que elas existem ainda, estão escondidas num recanto encobertas pela neblina. Não se falam mais em flores. Poesias, então, perderam o seu encanto. A literatura não é mais enaltecida pelos bons livros que infelizmente não fazem parte de nossa cultura cabocla.

Acabo perdendo o costume de assistir televisão. Jornais impressos perderam a vez. A internet passou a nossa menina dos olhos. Sem ela não se sabe o que anda acontecendo.  Se bem que fake News são espalhadas como papeizinhos ao vento.

Agora, nestes tempos confusos, sem saber de que lado está a razão, só me atraem filmes de ação. De vez em quando uma comédia me faz sorrir. Mas os dramalhões da mesma maneira me levam às lágrimas.

Tenho por amigo um senhor. Seu Antenor, experiente e vivido, sempre o encontro ao final das tardes. Ele é meu vizinho de roça. Trabalhador contumaz e consumido pelos anos a fio no cabo da enxada.

Já passou por experiências malogradas e felizes durante grande parte de sua vidinha descomplicada.

Enfrentou secas. Tempestades não lhe meteram medo.

Desde quando o conheço, isso faz tempo, nunca o vi queixando-se dos contratempos. Ao revés. Desgraça pra ele é bobagem. Tristeza nunca lhe passou pelas lembranças. Apesar de agora viver solitário, naquela casinha modesta, Seu Antenor sempre diz: “azar pra mim é festa”.

Um dia, era setembro, inicio de primavera, passei por ele à beira da estrada.

Seu Antenor estava prestes a se recolher. Já passava das seis da tarde. O dia se mostrava cinzento. Parecia que iria chover no decorrer da noite.

Entabulamos uma prosa amistosa. Era apenas ele e eu. Apenas uma vaca mocha observava, ruminando, a nossa conversa.

Saudei-o com uma boa tarde.  “Boa, não podia ser melhor.” Retrucou ele.

“Como vai as moda”? Insisti. Já que ele não estava de bom humor.

Para não perder um amigo comentei sobre o preço do leite. Sobre a carestia na cidade. Não deixei de fora as notícias ruins. A tal pandemia foi outro assunto que mereceu menção.

Seu Antenor não me deu resposta. Parecia ter emudecido. Não era de seu costume ficar calado. Era um palrador de mancheia. Contador de causos e histórias da mula sem cabeça.

Antes de lhe dar boa noite, já o sol se escondia, falei sobre as noticias veiculadas pelos jornais do dia.

Não deixei de fora os desacertos da economia. Muito menos a fome que campeava nas grandes cidades.

Antes de ir embora acabei ouvindo da boca do amigo Antenor estas palavras que me fizeram pensar: “quer saber mesmo doutor? Jornal, pra mim, só tem serventia para embrulhar peixe em peixaria. Ou até mesmo botar fogo no fogão a lenha. Não leio uma letrinha impressa naqueles pedaços de papel. Muito menos assisto à televisão. Se quero saber quanto de leite a vaca vai dar, pergunto ao Manuel. Ele sim. Sabe melhor do que ninguém quando vai chover. Ou quando o sol vai nascer. Escuto apenas um radinho de pilha que meu pai me deu. Ele sim. É meu companheiro de verdade. Cala a boca quando o desligo da tomada. E volta a falar em plena madrugada”.

Cada vez mais aprendo quando vou à roça. Da boca daquele povo bom nunca sai asneira.

 

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