Certos assuntos não me atraem.
Discutir sobre politica, brigar por uma reles partida de futebol, divagar sobre a tal pandemia, vaticinar até quando ela vai se estender, em absoluto não me sinto confortável.
Sobremodo à mesa de almoço. Quando nossas atenções deveriam ser agradecer. E degustar aquele prato que nos colocam a frente, enquanto muitos passam necessidades, e mal têm o que servir, nestes momentos difíceis por que estamos atravessando.
Aí, quando alguém puxa o assunto finjo-me de surdo. E não participo daquela prosa indigesta. Que não leva a lugar algum. Pois quem nos governa não tem a menor pretensão de mudar as coisas, já que suas divagações passam longe de nossa mesa.
Não que não tenha nenhuma opinião formada sobre o momento grave por que passa o nosso pais. Ao revés. Preocupa-me a situação aflitiva por que passa a maioria de nossa população. No entanto faço a minha parte. Procuro praticar a minha profissão dentro dos limites da ética e da decência. Sempre ofereço meus préstimos a quem precisa. O mais deixo por conta de quem nos dirige. Quando o nosso presidente vai contra os bons costumes, e fala pelos cotovelos, mudo de canal. Em quem eu voto nem às paredes confesso. Entendi que em boca calada não entra moscas nem comida estragada.
Um belo dia, sol brilhando como o de hoje, nesta sexta-feira de setembro, ao deixar a minha rocinha entregue em mãos de quem entende de vacas e suas crias, passei por um senhor, amigo velho, por quem tenho a maior admiração.
Seu Antenor se preparava para entrar em casa. Já era quase sete da noite.
Parei um instante junto dele. Desejei-lhe boa noite.
Já que estava uma noite clara, o céu ainda não estava escuro, parei para uma conversinha amistosa. Bem o sabia que o amigo velho não apreciava certos assuntos.
Seu Antenor, com os olhinhos quase fechando de sono, convidou-me para um cafezinho feito inda pouco.
Entrei casa adentro. Ali, naquele ambiente simplesinho, só estávamos nós dois.
Assentado à beira do fogão a lenha seu Antenor começou a prosa falando do tempo.
“Que secura estamos atravessando. Não chove desde dois meses antes. A pastaria mostra-se sem nenhum capim a verdejar. Só vejo os ipês florindo. As minhas vacas não se afastam do curral. Não vejo a hora de plantar.”
Para não mudar de assunto continuei a falar do tempo. O preço do leite até que atravessa um bom momento. No entanto os insumos sobem às alturas. O lucro é pouco. Tem-se de trabalhar muito.
Quando, no momento em que estava quase partindo, tentei comentar sobre a situação que o país atravessa. Os desmandos da politica não ficaram a parte. Quem iria ganhar as próximas eleições tive a audácia de comentar.
Foi quando escutei, da boca experimentada do amigo Antenor, estas palavras que me fizeram pensar: “quer saber? Pra mim tanto faz como tanto fez. O que me importa é quando a chuva vai cair. Quando a vaca vai prenhar. E quando poderei plantar a minha roça de milho. Já se faz tarde. Quando outubro vier não sei o vai ser da gente. O melhor é a gente mudar de assunto. O que acontece na cidade não me diz respeito.”
Dali saí pensando do mesmo jeito. Não é que o melhor é mudar de assunto?