A florzinha do ipê que queria ser gente

Estamos quase ao final da florada dos ipês.

Logo começa a chover e elas caem ao chão. Despedem-se da árvore mãe. E viram estrume da terra. E esperam o novo ano para florescer.

As flores do ipê duram bem pouco. Alguns dias, semanas, talvez. E em questão de dias seguidos a árvore que as gerou passa a ser um amontoado de folhas verdes, galhos finos, e um tronco intimamente ligado ao solo. E assim passa um ano. Setembro vem a primavera. Outubro anuncia novembro. Logo entra dezembro. E o ano termina numa velocidade repentina. Adeus ano velho. Que o novo ano seja melhor que aquele que passou.

Um dia, que se perdeu no tempo, quando descia a rua em direção ao consultório, como sempre faço, pela manhã, no despertar do dia, passei por uma árvore intensamente florida. Era um ipê que morava numa pracinha antes enjeitada, nas vizinhanças do condomínio, de onde guardo boas lembranças.

Ali parei por um átimo. Fiquei a observar embevecido aquele lindo cenário. Eram dois ipês quase gemelares. Idênticos, iguais em quase tudo. O maior deles chorava flores amarelas. O de menor porte ainda começa a se encher de flores.

Naqueles breves momentos da minha observação impertinente uma florzinha amarelinha despencou avoando lentamente. Quis evitar que a queda fosse menos dolorosa em suas petalazinhas recém-desabrochadas. Amparei-a com a palma da mão.

A florzinha do ipê assustou-se com minha intromissão. Não era de seu costume ter alguém a impedir que ela fosse ao solo, juntar-se às flores irmãs.

A princípio, para não amedrontá-la ainda mais, falei com ela, mansamente. E a seguir a deixei juntar-se as suas amiguinhas, que já estavam quase mortas, debaixo da árvore mãe.

Aquela florzinha, amarelinha, frágil como uma pétala de rosa, depois de eu demonstrar ternura, que não faria mal a sua pessoinha pura, acabou por acalmar-se lentamente.

E conversamos por um breve instante. Eu e ela. Só nós dois.

Foi este o diálogo que aconteceu entre nós.

“Quem é você, para impedir minha queda, intrometido cidadão”? Disse-me elazinha.

“Sou apenas eu. Um médico escrevinhador, que adora observar a natureza, nesta hora bem cedo, para obter subsídios para minhas escrevinhanças matinais. Observo tudo que me rodeia. Olho o voo dos pássaros, o zumbido das estrelas, o murmurar de um riacho, o vai e vem de uma borboleta de flor em flor. Não faço mal a ninguém, a não ser a mim mesmo. Sofro por sentir demais. E por não poder demonstrar meus sentimentos posso ser taxado de insano. Se por acaso a amparei foi por tentar atenuar-lhe a queda. Sigo tentando não deixar sofrer todo aquele que igual a mim sofre demais.”

A florzinha admirada, assim me respondeu, docemente: “quer mesmo saber? Meu bom doutor. Tenho vida breve. Morro em alguns dias. Não tenho o prazer de brincar com minhas irmãzinhas. E quando caio ao chão logo me desfaço. Viro adubo. Incorporo-me à relva ressequida do mês de setembro. Gostaria de durar um cadinho mais. Varar dezembro. Ser presenteada nas festas de Natal. Daí o meu desejo de virar gente. Uma meninazinha de cachinhos amarelinhos. Ou um menininho artioso para poder rodar pião ou jogar bolinhas de gude. Sei que amanhã, ou no mais tardar depois de outro amanhã, não mais estarei por aqui. Nesta pracinha vizinha de onde o senhor mora. Ai que vontade de nascer de novo como se fosse outra pessoa. Já cansei de ser flor de ipê. O senhor, com os atributos que sua mente criativa lhe imputa, não pode transformar-me em um ou outro”?

Não tive como recusar-lhe o pedido. Daí nasceu este texto. Que teve a felicidade de metamorfosear aquela florzinha de ipê em uma linda menininha de cachinhos amarelinhos, como um canarinho da terra, que canta e encanta como a florada dos ipês.

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