Hoje mesmo entrou setembro.
Agosto se despediu. Logo adentra outubro. Depois vem novembro. Dezembro mostra a cara. Com jeito de quem anuncia novo ano. Mais um acrescento aos meus mais de setenta. Quantos anos mais viverei?
Não importa que os anos passem. Não importa a passagem do tempo.
O que conta, de verdade, é a vontade de nos sentirmos sempre jovens, mesmo que os anos não nos digam amém.
Deixa o tempo passar. Naquele ritmo frenético.
Ontem cheira o passado. Hoje nos lembra o presente. Já o futuro, não importa. Ele é uma questão a ser discutida quando ele vier.
Não importa que os anos passem. O que conta é viver em plenitude o momento em que estamos vivendo.
Hão de concordar comigo que o presente não tem sido fácil. A inflação em alta. O desemprego crescente. A tal pandemia sem hora de terminar. A cada dia contabilizam-se vitimas. Mortes são anunciadas pela mídia que só noticia coisas ruins.
Agora mesmo, neste primeiro de setembro, o sol brilha ameno. A chuva ainda não caiu. Dizem, a toda hora, que a crise hídrica vai aumentar o preço da energia. Como se não bastassem tantos aumentos o brasileiro ainda tem de suportar a crise de um desgoverno.
Deixe o tempo passar. Assim me disse um amigo.
Ele, com a tranquilidade desde quando nasceu, permanece sossegado assentado vendo o tempo passar. Pra ele não tem tempo ruim. Se melhorar piora.
José Sebastião, amigo de longa data, não conta anos. Nem ao menos os desenganos. Já passou por enormes dificuldades. E as enfrenta galhardamente. Quando perdeu o primeiro filho chorou copiosamente. Dois meses depois sobreveio a perda da esposa amada. Como sofreu com aquela falta inesperada.
Mesmo assim nunca o vi sem exibir um largo sorriso nos lábios. Zé hoje conta com mais de oitenta anos. No entando parece menos. Nunca se preocupou com a passagem do tempo.
Naquele dia em que nos encontramos, naquela curva do caminho, naquele sábado distante, parei um cadiquinho para apertar-lhe a mão. Tinha pressa. A hora já se fazia tarde.
Parei a caminhonetinha prateada logo a sua frente. Ele sorriu pra mim.
Perguntei-lhe como estava de saúde. Se por acaso alguma doença o importunava.
Já ele, com os olhos sonolentos, já era hora de dormir, respondeu-me num ímpeto: “quer saber? Estou indo. Sem pressa. Bem sei que se aproxima meu fim. Em breve não mais estarei por aqui. O médico me disse que uma doença tinhosa me vai levar à sepultura. Não lhe perguntei a data precisa. Nem ao menos quero saber. Não conto o tempo. Já vivi o bastante. Já fiz o que queria. Já perdi entes queridos. Agora só me resta despedir-me da vida. E me encontrar, em algum lugar, com aquelas pessoas amadas. O céu estará em festas. No dia em que isso acontecer. Aprendi, nestes anos todos de vida, que o melhor é deixar o tempo passar. Sem nos preocuparmos com o que virá”.
De fato. A partir de então não mais conto as horas. Aprendi que o melhor é esperar, sem pressa, o caminhar do tempo, até quando Deus quiser.