A vida compreende – começar, intermediar, e o fim.
A gente nasce sem entender muitas coisas. O que será da gente?
A primeira pessoa que enxergamos, neste momento mágico, o nascimento, são os olhos de nossa mãe.
Parece que ela é uma pessoa bem conhecida. Muito embora, durante a estada dentro dela, não sei se imaginamos que foi através dela que despertamos para a existência. E, ao fim da vida alguns ingratos deixam a mãe no abandono. Pois ela passa a ser um peso morto, por vezes renegado em nossa outra família.
Já passei pelo começo. Fui criança, um reles bebezinho. Depois passei pela fase jovem. Quando pensava que o mundo tinha as cores do arco-íris.
Foi então que ultrapassei a juventude. Que saudade daqueles verdes anos.
Nem de longe imaginava o que a vida me reservaria. Se seria feliz. Teria sucesso. Ou seria um retumbante fracasso.
Foi nesta altura da minha existência que tive de escolher uma profissão. Não tive a influência de ninguém. Foi por mim mesmo que decidi que a medicina seria a minha predestinação.
Por ela me enveredei. Tive dificuldades no começo. Depois fui-me acostumando aos fracassos. A morte me assustava sempre. Perder um paciente passou a fazer parte da minha vida. No entanto, quando dava alta, com que satisfação recebia aquele muito obrigado doutor.
A seguir, neste momento, depois que me vi um velho médico, ainda compenetrado em atender, se bem que em menor escala, dou-me o direito de fazer o que me apraz.
Tenho a medicina em alta estima. Mas, depois de mais de quarenta anos de labuta constante, passei a pensar mais em mim. Não que tenha deixado a medicina de lado. Muitos me perguntam se me aposentei por completo. A estes respondo que ainda estou longe do fim.
Não sei quantos anos mais me restam. Meu saudoso pai faleceu aos setenta e sete. Hoje conto com setenta e um. Me restariam apenas mais seis?
Ignoro quando será meu fim. Estou apenas no recomeço de um novo tempo. Sinto-me feliz por estes anos todos vividos. Agradecido pela saúde que ainda me bafeja.
Já passei pela infância. A juventude já se foi ao longe. A fase adulta ficou pra trás. Agora, neste meu recomeço, ainda penso em viver muitos anos. Desde que tenha motivos para continuar a sorrir. Uma vez que a saúde me abandonar, tiver de ficar preso a um leito de hospital, sem pelo menos abrir os olhos, contemplar as diabruras dos meus netinhos, poder com eles brincar, servir de montaria aqueles corpinhos serelepes, ai sim, não terei motivos para continuar a viver. Só vai me restar me despedir de todos. Ai vou saber se valeu a pena viver, neste mundo onde tantos sofrem sem perceber, neste mundo tão dispare, onde a minoria tem tanto, e outros nada tem.
Se pensam que já vivi demais, digo e conclamo: ainda estou no começo. Pronto a recomeçar tudo de novo. Fazendo tudo que fiz antes. E não me arrependo dos sonhos não concretizados, dos insucessos que tive, dos amores que não tiveram bom fim.
Se um dia me perguntarem se sou feliz. Se mais no começo, no meio, ou no fim, respondo: “tenho buscado a felicidade em todas as fases do caminho. E a encontrei em muitos atalhos. Enveredei-me pelo caminho errado. Mas, no fim, penso ter acertado. Nesta vida que ainda está longe do fim”.