Nestes anos todos de vida tenho acertado e cometido senões.
Não por escolha minha acertei em nascer naquela família.
Foram anos felizes ao lado dos meus pais. Agora, daquela casa, hoje só me restam lembranças. Neste exato momento, daqui do alto, só vejo dois lotes vazios.
A casa da Costa Pereira já não existe mais.
Foi lá que passei a minha infância. Nos idos anos da década de cinquenta. Foi lá que conheci meus primeiros amigos. Tinha cinco anos, naquele bom tempo de vida.
Foi naquele mesmo hospital que comecei a praticar o que aprendi nos bancos da faculdade. Foi lá que comecei a trabalhar depois de uns tempos vindo de terras dalém mar.
No começo daqueles tempos cometi acertos e senões. Acredito, não por culpa minha, e sim da inexperiência dos anos, foram mais desacertos que propriamente vitórias. Já que as derrotas frente às enfermidades me ensinaram a ser menos intempestivo. Só com o passar dos anos foi que aprendi a controlar as minhas ansiedades. Que eram tantas. Mas confesso, sou irrequieto por natureza. Não tenho como ficar na cama além das seis e meia. Todos os dias saio de casa a mesma hora de sempre. Não tenho como me aquietar depois de uma noite curta. Como curta tem sido a vida nestes tempos de pandemia.
Penso ter acertado em quase todos os momentos da minha vida. Se cometi logros não foram por culpa minha. Imputo os desacertos a uma dose mínima de imprudência. Queria chegar ao fim estando apenas no começo.
Só com o tempo passando, com a idade avançando, aprendi a errar menos. Naqueles tempos idos, de começo de carreira, pensava que toda doença poderia ser tratada no talho do bisturi. Já hoje aprendi que algumas delas devem ser observadas no seu avançar. Nem toda patologia merece um tratamento igual. Cada caso é um caso. Devemos ter prudência e discernimento para identificar qual a melhor conduta. Os erros que cometi durante a vida tiveram uma explicação só agora descoberta. Foram devidos a falta de saber identicar entre este ou aqueloutro tratamento.
Ainda cometo senões. Mas retrocedo assim que percebo. Aprendi que errar é humano. Mas persistir no senão só leva a desenganos.
Entre acertos e desacertos penso girar a vida. Acertei em decidir qual seria a minha profissão. E penso continuar no exercício da medicina por muitos anos mais. Embora não saiba quando a minha aposentadoria definitiva irá se dar.
Entre acertos e desacertos caminha a humanidade. Agora mesmo ainda não descobri a minha verdadeira identidade. Se continuo médico. Ou deixo o escritor tomar conta de mim. Sou dúbio entre um e outro.
Acertei se navego entre as duas profissões e penso continuar assim até o fim dos meus dias.
Acerto sempre ao me exercitar para tentar frear o tempo. Meus acertos levam certa vantagem entre os senões. Mas se por acaso errar, por que não recomeçar tudo de novo?
A vida é uma contínua peleja entre acertos e desacertos. Errando é que se aprende. E tenho ainda muito que aprender…