Embora os anos tenham passado, com a velocidade de um casal de seriemas assustado, em absoluto não me sinto velho.
Embora o espelho diga o contrário, péssimo confidente, ao me olhar nele percebo que as cãs enxovalham o que resta dos meus cabelos, sulcos profundos sulcam-me a pele macilenta, os passos caminham pachorrentamente, o olhar, apesar de brilhoso, não enxerga as entrelinhas sem a ajuda de um par de óculos.
Apesar de quase estar passando dos setenta ainda me sinto capaz de fazer quase tudo que dantes fazia. Correr ainda é um prazer. Exercitar-me a cada tarde uma necessidade. Ainda bem que as enfermidades ainda não se apoderaram de mim. A próstata sob controle. Nem ao menos faço o tal exame. Não por achá-lo inconveniente. Mas, como urologista praticante causa-me desconforto fazer o auto- exame.
Uma herniazinha ameaça ser operada. Adio o procedimento até que esta pandemia vá embora.
No alto dos meus mais de setenta, ainda em forma, a experiência me diz, com sua sabedoria obtida com os anos, que deveria me contentar com a idade que tenho. Mas quem diz que assim o faço? Sou extravagante. Como velho acordo ao despertar do sol. Se chove melhor ainda. Se faz calor dispenso cobertor. Se o frio buzina aos meus ouvidos finjo que não o escuto. Sinto-me surdo e mouco ao passarinhar dos anos.
A experiência, destes anos todos vividos, me recomenda cautela. Melhor ficar em casa. Ela me diz. Mas quem diz que eu a obedeço. Como meus netinhos novinhos não temo o castigo. Quer me castigar de verdade faça-me ficar sem escrever. Sem correr. Sem ir à roça. Sem me identicar com os mais jovens. Apesar de a velhice tentar me corroer por dentro tinto a pele com um verniz. Não é que o espelho por vezes se engana? Muitos dizem que não aparento a idade que tenho. Agradeço a este comentário, e o incluo entre as boas amizades.
A experiência adquirida com os anos não a vendo. Nem a troco. Caso algum jovem me faça uma proposta logo respondo: “quanto você quer de volta na troca dos meus mais de setenta pelos seus vinte e poucos anos”?
Ele sorri. Tenta fazer troça de mim. E vem logo dizendo: “caso o senhor quiser se desfazer de alguns anos, deixa comigo. Basta umas notas de duzentos reais. E ainda lhe volto troco. Não vou me arrepender da catira. O senhor, em verdade, parece meu filho mais novo”.
A experiência dos anos me ensina a ter paciência. Mas quem diz que consigo domesticar a ansiedade? Pra que pressa? Já passei da idade de juntar posses e bens. O único bem que ainda conseguirei, nos anos que me restam, é continuar a viver em intensidade plena.
A experiência acumulada com os anos vividos, nesta altura da minha existência, é tentar colecionar amigos. Já que a maior parte deles não mais fazem parte desta vida. Partiram antes de mim. Um dia os encontrarei de novo.
Não me sinto velho. Como aquele sapato gasto encostado num canto qualquer.
Ao revés. Sou como aquela árvore que ainda vai dar bons frutos. A não ser que a podem. E a cortem pela raiz.
A experiência dos anos vividos não me permitem reclames. Tenho tudo que gostaria. Esta clarividência que me alumia. A saúde ainda sem maiores percalços. Uma família adorável. Três netinhos que me fazem rejuvenescer. Um passado do qual não fujo. Só sinto a falta de ter meus pais por perto.
Em absoluto não sonego a minha idade. Ela, pra mim, é um troféu conquistado. Um lugar no alto do pódio. Por ter vencido as adversidades. E espero, até o dia do juízo final, continuar a escrever as minhas experiências, que sejam aproveitas por todos aqueles que puderem ler as minhas memórias. Retratadas a cada dia. Nestas crônicas que tanto me fazem bem.