Tião Mata Leão

A cada dia matamos um leão por dia.

Não apenas pelas contas que entulham o tampo da mesa. Assim como as desventuras de ter de enfrentar a condução. Da mesma forma o clima não nos favorece. Ora faz calor. Ora o frio ofende-nos a respiração dada à secura do ar ambiente.

Assim passamos a vida. Cada um tem a que merece. Uns são felizes a sua maneira. Contentam-se com pouco. Já outros se locupletam com a desventura de outrem. E passam batidos frente àquele pedinte que esmola no passeio, indiferentes a miséria que infelizmente viceja em nosso país, tão rico e ao mesmo tempo tão dispare.

Matar leões sempre foi uma das virtudes daquele sujeito batalhador. O qual conheci num passado remoto, quando ainda atendia num postinho de saúde perto, pra onde ia antes do final das manhãs.

Era o undécimo da fila. Já estávamos passando por esta pandemia. Que não mostra a hora e o dia de terminar.

Seu nome era Sebastião. Um dia me disseram que ele era conhecido por Tião Mata Leão.

Desempregado, segundo ele me afiançou, vivia de bicos pela cidade. Era jovem ainda quando foi demitido de uma padaria. Desde então, contava com apenas vinte anos, se tanto, passava por enormes dificuldades.

Perambulava pelas ruas catando latinhas. Trazia às costas um enorme saco que quando cheio pesava quase a metade do seu peso morto.

O que percebia pela venda do alumínio mal dava para suprir as suas necessidades. Era pouco. Muito pouco em se considerando o tal auxilio emergencial pago pelo governo. Mas era o que lhe bastava.

Felizmente Tião, naqueles tempos, que longe se vão, vivia num barraco num bairro de periferia. Era ele só. Não tinha esposa muito menos dependentes.

Naquele dia do atendimento Tião já havia se casado. A esposa, a qual amava tanto, quase mais que a si próprio, um dia o abandonou sem aviso prévio. E como ele sofreu por amor. Passou tempos difíceis. Choroso, poder-se-ia dizer deprimido.

Ele foi ao postinho de saúde na intenção de conseguir uma receita de tarja preta. Como negra estava-lhe sendo a vida. Não dormia não sabia informar desde quando. Passava as noites em claro. Apesar da escuridão do lado de fora da janela.

Não tinha fome. Nem desejo de continuar a viver. Seus pensamentos vagabundavam entre pular de um viaduto ou se envenenar. Havia, no dia antes do nosso encontro, comprado um remedinho usado para matar ratos.

Naquele breve entrevero Tião me contou detalhes de sua vida sofrida. A infelicidade reinava desde quando nasceu.

Filho de pais separados, criado pela avó, Tiãozinho, desde quando menino, mal tinha o que comer. Aos dez anos serviu de aviãozinho a traficantes mal encarados. Foi internado como menor infrator onde passou maus bocados. Conheceu a borduna do guarda por muitas vezes. Tinha os costados listados por sinais como se fossem tatuagens inapagáveis.

Aos vinte anos tentou mudar de vida. Foi quando começou a trabalhar. Naquela padaria da qual guarda lembranças boas. Até o dia de sua demissão.

A partir daí a sua vida, se é que aquilo se pode chamar de vida, deu uma guinada de trezentos e sessenta graus.

Foi quando nos conhecemos. Naquele postinho desapetrechado de recursos. Prescrevi-lhe o fármaco que ele pediu. Mas sabedor de que aquele medicamento em verdade não iria curar seu infortúnio.

Tião Mata Leão me agradeceu. Seus olhos lacrimejaram. Nunca mais o vi.

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