A bancarrota do Zé Pitimba

Tem gente que alardeia o quanto é bom viver na roça.

Mal sabem eles que vaca não dá leite. Tem de tirar.

E que pra tirar leite tem de acordar cedo. E vaca não dá leite de graça. Não pensem que é só espremer as tetas, ou quem tem ordenhadeira, ficar ali, pachorrentamente, à espera de o leite descer. O esforço é continuado. Plantar milho ou capim na hora certa. Ficar a mercê do tempo. Semear, adubar, e, colher, quando Deus quiser.

E quando a chuva não chega? A poeira faz atolar na estrada. Ou, com muita sorte ter o barro por companhia. Aí o caminhão leiteiro não chega. O leite azeda no verão. Pois não aprecia altas temperaturas. E, pra quem pensa que a conta de energia fica barata? É por que nunca pagou a aquela importância ingrata.

Quem vive na roça está sujeito a toda sorte de contratempos. Se ele dependesse tão somente dos seus braços fortes tudo iria a contento.

Mas não só de ver os canarinhos da terra ciscando o esterco do curral, o sabiá cantando na bananeira, aquele por do sol lindo ao cair das tardes, a vacada deixando o curral berrando de saudade de suas crias, nem só de pão vive o homem. Aliás, pão é coisa rara nos ares da roça. Pois não conheço uma só padaria pertinho daquele lugar onde o trabalho é continuo, mulher é fruta rara, pois quem tem sua não divide com ninguém, fazer amor só casando.

Conheço um senhor, bem andado em anos, de nome Zé, Pitimba é alcunha, posto por um amigo da onça, o qual tem muito que contar sobre as desventuras de quem vive na roça.

Ele herdou uma gleba de terras da família. Para ali se mudou de vez da cidade.

Na cidade grande tinha um certo conforto. Era empregado numa grande indústria.

Mas, de tanto ouvir falar nos encantos de uma rocinha, assim que foi informado de que poderia ter a sua, para ali se bandeou. Numa tarde escura.

Deixou tudo que possuía em mãos de terceiros. Suas posses eram modestas. Tinha um apartamento bem situado. No centro da cidade. Um carrinho do ano. Que bebia pouca gasolina. Vestia roupas de grife. Era solteiro, por sorte dele.

Naquela tarde de sábado afivelou as malas. Mudou-se de vez para aquela pequena propriedade. Não deixou saudades de ninguém. Pois quase não tinha amigos.

Naquela rocinha perdida no fim do mundo encontrou tudo abandonado. As vacas mugindo de fome. Os bezerros perdidos num sarandi danado. A pastaria pra roçar. Uma carrapatada a infernizar-lhe a vida. Que era boa até aquele momento.

Foi então que começou a bancarrota do Zé Pitimba.

Para tocar o negócio, que mal conhecia, resolveu pedir um empréstimo ao banco. Era época de plantio.

Era uma soma não tão graúda como a melhor espiga de milho. Mesmo assim empenhou o apartamento. Deu como garantia o seu carrinho do ano passado.

Naquele ano não choveu. A seca tintava de amarelo escuro a terra desnuda. Zé Pitimba comprou adubo a pagar na colheita. Mas a tal foi adiada para o ano seguinte. A roça de milho não foi adiante. O preço do leite despencou de repente. Foi um mar de contratempos na vida daquele homem. Que pensava que tudo eram flores, mas desconhecia os espinhos.

Um ano se passou. O banco acabou protestando a divida. Zé acabou vendendo o gado. Recebeu um muito obrigado e um cheque sem fundos.

Ao cabo de dois anos e meio teve de vender a fazendinha. Pela metade do preço que ela valia.

Acabou de tanga dormindo debaixo de um viaduto. Felizmente ainda tinha saúde, até que veio a pandemia.

Zé foi internado como indigente num hospital de campanha. Nunca mais tive notícias dele.

Que seu exemplo sirva de lição para quem pensa em se mudar pra roça. Ali tem seus encantos. Mas nada vem de graça. Como a desgraça por vezes chega. Num trote macio ou por vezes duro demais para os nossos costados.

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