O sobrevivente

Hoje amanheceu um dia típico de verão, embora ainda transcorra o inverno.

O céu de uma azulice profunda. De um tom amarelo canário. Nenhum indicio de chuva no alto. Nuvens devem estar em recesso. Ontem, durante a noite, choveu um bocadinho. A seca predomina. A poeira se levanta ao passar dos carros.

Agora pela manhã, ainda cedo, ao chegar ao consultório, deparei-me com uma cena inusitada. Um único peixinho ainda respirava. Ele arfava boiando na superfície do meu aquário. Tentei restitui-lo à vida. Foram debaldes as minhas tentativas. Peixes aquarianos duram pouco. No rio eles sobrevivem muito mais.

Aquele peixinho sobrevivente fez-me pensar num velho amigo. Que já partiu rumo ao infinito há anos tantos, que nem me lembro mais.

Ele se chamava Pedro. Não vou declinar-lhe o sobrenome, pois ele era assaz conhecido em nossa cidade.

Lutava contra um câncer desde quando o conheci. Ele era valente. Bravo. Sempre com um sorriso na face. Apesar de seu estado critico.

De vez em quando o visitava em sua morada. Nos últimos tempos sempre o encontrava no leito. Esquálido, olheiras profundas sulcavam-lhe a face. Uma palidez cadavérica mostrava que a sua doença estava no final.

Apesar das suas forças cada vez mais minguarem ele não desistia da vida. Lutava contra tudo e contra todos. O seu fim se aproximava.

Já fora operado por mais de duas vezes. No entanto a doença voltava ainda mais letal.

A única opção que lhe restava era a radioterapia. Daquelas sessões, uma vez por semana, voltava ainda pior. Vômitos eram frequentes. Ele mal se aguentava de pé.

A sua esposa zelava por ele. Era uma senhora abnegada apesar da idade.

Quando, por ali passava, quase sempre encontrava os dois orando, no mesmo leito, pedindo graças ao seu santo protetor.

E as orações se repetiam. O estado daquele velho amigo cada vez mais se complicava.

Na derradeira vez que o vi ele não mais falava.

Um ano inteiro se passou. Não mais voltei à casa daquele velho amigo. Não gostaria de ser testemunha daquele sofrimento. Como médico sabia que ele não duraria mais que a florada dos ipês.

No entanto, contrariando as previsões, mais otimistas, soube, pela boca de terceiros, que o amigo velho resistia bravamente a sua enfermidade. Dois anos inteiros viraram o calendário.

Voltei a visitar meu velho amigo. Foi num mês de agosto. Quase ao seu final.

Encontrei-o caminhando na sala de visitas. Com o auxilio de um andador. A esposa havia partido antes dele. Foi uma morte súbita. Intempestiva como a tempestade do último verão.

E meu velho amigo resistia a tudo contrariando as previsões. E ele viveu mais quase uma década. Parecia que a doença havia desistido de incomodá-lo.

Ele era forte. Guerreiro, lutador contumaz. Como aquele peixinho do meu aquário ele acabou morrendo em meus braços. Orando agradecido ao seu santinho protetor.

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