Nunca se poderia chamar a chuvinha que caiu durante a noite de chata. Muito menos de aborrecida.
Hoje em dia costuma-se chamar aquela pessoa tida como chata de mala. No que acrescento – sem alça. Devido à dificuldade de carregá-la.
Em verdade nomeio de chato um carrapatinho miúdo, muito comum durante a seca, chamado Micuim. Ele, quando gruda a nossa pele, deixa um prurido que custa a passar, além de um rastro vermelho, devido ao seu ferrão venenoso. Aliás, todos os chatos verdadeiros não deixam de ser venenosos. Pois espalham antipatia por onde passam. São verdadeiros esvaziam bancos. Não há quem tolere a sua presença ao lado. E continuam a espalhar fofocas por onde passam.
Segundo a definição do dicionário chato pode ser da mesma forma uma superfície plana, sem relevo, e um tipo de inseto, chamado piolho, ou um sujeito inoportuno, maçante, e da mesma forma incômodo. Suportar a presença de um chato pode levar a intranquilidade ou até mesmo a outros destemperos. Ele é persona não grata na sociedade.
E como identificar uma pessoa chata?
Ontem, de tarde, ao chegar à academia onde frequento, me chamaram de lado.
Embora usasse aquele foninho de ouvido pude entender que, alguma pessoa, de um grupo de whatsup, daqui da cidade, havia listrado quase uma centena de pessoas conhecidas como as mais malas da comunidade.
Entre elas meu nome constava. Eram mais de sessenta indivíduos, quase todos do sexo masculino, assaz conhecidos. Eu pelo menos sabia quem seria a maior parte deles.
Nessa lista de notáveis constavam alguns vereadores. Nobres edis, comerciantes bem sucedidos, profissionais liberais, e até mesmo fazia parte da relação a nossa mandatária maior.
Eu não era o primeiro da lista. A minha frente, talvez não por ordem de chatice, constavam outros nomes. Eu ocupava o décimo sexto lugar.
Uma vez correndo na esteira uns bons quilômetros, passou-me pela cabeça qual o critério usado por esta pessoa para fazer aquela relação.
Seriamos nós como carrapatos micuins? Que deixam rastros por onde passam? Ou simplesmente por não gostarem da gente. Embora não nos conhecesse de fato?
No meu caso a minha chatice seria devido a tentar espalhar cultura pelos leitores apreciadores de livros? Ou simplesmente por passar quase a vida inteira me dedicando a medicina. O que ainda me apraz.
E no caso dos demais? As suas chatices se devem a serem formadores de opinião? E ocuparem cargos importantes na comunidade? Não se chuta cachorro morto. Já disse isso em outra ocasião e me dei mal.
Nesta lista entre os mais malas sem alça constavam pessoas inatacáveis. Com um dono de bar, que por ter a cara fechada, e toca sozinho o seu negócio, faz peixes fritos deliciosos. Não será preciso declinar-lhe o nome pois todos já sabem.
Entre os chatos listrados acima alguns são chamados pelos apelidos. Ou por um costume bizarro. Nada que os desabone. Pelo contrário.
Quem fez esta lista não se identificou ainda. Deve me conhecer. Ou pelo menos ouviu falar.
E como gostaria de ser apresentado a ele. Tenho certeza, hão de concordar comigo, que esta pessoa deveria figurar em primeiro lugar nesta lista dos quase cem.
Ele deve ser bem parecido a um carrapato micuim. Bem chatinho, escurinho, grudento e pruriginoso. Que deixa rastros de antipatia por onde passa.
E nós, os supracitados, entre os mais chatos, a sua pessoa não fede nem exala odor. Simplesmente vive a falar dos outros. A fofocar por não ter nada o que fazer. Na próxima lista gostaria de ficar em primeiro lugar. Será difícil permanecer atrás de você.