João Parecença

Neste final de semana estive na roça.

Foi uma passadinha rápida a conta de sanar alguns problemas.

Da próxima vez pretendo ali ficar um cadinho mais.

A seca devorava tudo. A pastaria nada oferecia de comer aos animais. Uma poeira amarela fazia-nos entupir as narinas. A caminhonetinha prateada ficou de uma cor irreconhecível.

As nascentes estavam prestes a secarem. Por sorte nossa o amigo Roberto teve a ideia de fazer correr água nos pés de jabuticaba. E elas produziram frutos como nunca vistos antes. Foi uma gostosura dependurar-me ao pé para chupar aquelas frutinhas doces como o abraço de uma avó.

Ali deixei saudades daqueles verões chuvarentos. Quando atolava no barro, o verde se mostrava por todos os lados, as vacas pastejavam felizes da vida, e mal apareciam à beira do curral.

Já hoje, nesta segunda-feira de agosto, dia dezesseis, com o mês passando do meio, o dia amanheceu cinzento. A temperatura se elevou. Parece que vai chover no decorrer do dia. Ainda não consultei a meteorologia. Parece, segundo meus sentidos acusam, que pode cair água nesta semana que ora se inicia.

Foi quando me lembrei, naquele sábado que passou, quando em visita a minha propriedade, agora bastante modificada de quando a comprei, de um amigo velho, quando nos dividida os pastos um ribeirãozinho de águas cristalinas, antes de se tornar Represa do Funil, de nome um tanto complicado, conhecido nos arrabaldes por João Parecença.

Muitos o chamavam de João Parece. Mas eu, amigo de longa data, achei melhor mudar seu nome para João Parecença. Pois nem tudo que parece o é.

Sempre que o encontrava, em visita àquele amigo, depois de atravessar aquele corguinho de pé, encontrava-o na sua horta de couve. Era um colírio para os olhos ver aqueles pezinhos de jiló em ponto de madurar, aquelas beterrabinhas novinhas, vermelhinhas de fazer doer os olhos, aquelas couves de um verdume impar, as mandiocas cada uma mais grossas e macias que se derretiam na panela em água morna,  as cenourinhas que eram comidas ali mesmo, depois de lavá-las na bica de onde escorria água da mina, os quiabos que faziam salivar junto a um frango caipira, depois de um dedo de prosa, em nossa conversa amistosa, sempre perguntava ao amigo João, qual a sua opinião de bom entendedor, se por acaso iria chover, ou se a seca iria continuar.

E ele sempre me respondia: “ parece.”

Nunca tinha a resposta na ponta da língua. Sempre olhava pro céu, consultava seu bigode vasto, se por acaso ele coçava, se um passarinho assoviava, se as nuvens dançavam, se o vento dizia sim, ele, neste exato momento jurava que parece que sim.

João Parecença nunca se enganava. Era um experto não apenas nos delírios do tempo, como nas amizades verdadeiras, assim como nos falsos profetas, nos desenganos amorosos, bem como nos contratempos da vida.

Era ele quem me aconselhava, e não tinha erro, qual a melhor época para o plantio, quando a égua vai dar cio, bem quando  a mulher olha pra gente com ares de indiferença ou de querer de fato um encontro atrás da moita,  naquela caminha improvisada, fazer amor sem querer querendo, receosa de o marido chegar na hora errada.

João Parecença nunca se equivocava em seus vaticínios. Quando ele dizia – parece, pode ter certeza que o momento é esse.

Só me equivoquei uma vezinha só.  Não por ele. Por mim mesmo.

Hoje amanheceu um dia cinzento. Jurei que iria chover. De repente abriu-se o sol. O azul do céu se fez em festa.

E nada de a chuva cair. Da próxima vez não me esqueço. Vou perguntar ao João Parecença a sua opinião. Por certo ele vai dizer: “parece”…

 

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