Como tem morrido gente nos dias atuais.
Só se fala nisso. Até parece que não se vive mais.
Mortes são anunciadas a cada instante. Pela televisão, pelos noticiários da internet, por todos os meios de comunicação.
A causa mortis parece sempre a mesma. As outras patologias não carecem de menção.
Agora só se morre por covid. Quando um infarto acontece sonega-se de que morreu o fulano. Por trás das doenças do coração sempre existe a possibilidade de ter por detrás esta doença da moda, cada vez mais prevalente, muito embora a vacinação tenha concorrido para a diminuição dos casos. Até quando? Ainda é uma pergunta sem resposta. Alguém sabe me dizer quando?
Juquinha, humílimo gari, sujeito batalhador, que conseguiu o primeiro emprego aos quinze anos, nunca renegou serviço.
Pau pra toda obra. Foi servente de pedreiro, ajudante de padeiro, sapateiro, até quando esta profissão existia, até que, num belo dia, quando se achava desempregado, eis que apareceu a chance de ajudar na limpeza pública.
Juquinha contava com vinte anos exatos naquela manhã de segunda.
E como era bom vê-lo correndo atrás do caminhão de lixo, juntando sacos aqui e acolá, correndo como um maratonista sem direito a medalhas, por toda a cidade, onde o lixo estiver.
E nunca o vi de cara fechada. Embora fosse uma profissão insalubre ele se sentia orgulhoso de deixar a cidade limpa, vestindo aquele uniforme de um amarelo desbotado, usando luvas quase sempre rotas, botinas furadas na sola gasta.
O salário não era lá estas coisas. Percebia um ganho irrisório. Que mal dava para as despesas diárias. Morava num bairro de periferia. Onde a violência predominava. Tinha verdadeiro medo de ser assaltado. Não tinha uma carteira recheada. Mas o que mais prezava era um celular último tipo. Comprado a prestações. Com muitas ainda a pagar.
Um dia, era manhã bem cedo, quando se preparava para pegar a lotação, sempre lotada, eis que uma mão esperta aliviou-o daquele bem único que havia comprado a semana passada. Desde então ficou sem o celular. De nada adiantou prestar queixas numa delegacia próxima. Ainda foi advertido para se precaver dos assaltos. A maior parte deles cometido por menores infratores. Que são inimputáveis perante a lei.
Juquinha morava de aluguel. Era solteiro. Mal tinha tempo de namorar. Aquele barraco infecto quando chovia goteirava mais do que do lado de fora. Acordava com a cama ensopada. Fazia um cafezinho magro num fogão a lenha improvisado. Já que não podia pagar o gás de cozinha. Cujo preço era proibitivo a sua realidade.
Trabalhava recolhendo lixo de sábado a segunda. Descansava apenas no domingo. Quando se dava ao luxo de jogar futebol num campinho de várzea. Próximo de onde morava.
E como sentia saudade do seus distante Nordeste. A sua Paraíba parecia cada vez mais distante.
Um dia, era ainda cedo, numa segunda-feira, começo do mês de agosto, Juquinha amanheceu resfriado. Tossia uma tossezinha seca. A temperatura corporal se elevou um cadinho.
Procurou uma unidade de saúde perto de onde morava. Foi-lhe receitado medicamentos para controlar os sintomas. Nem exames para constatar qual enfermidade foi feito.
Amanheceu no dia seguinte ainda pior. Mesmo assim foi trabalhar. Passou maus bocados correndo atrás do caminhão de lixo. O ar lhe faltava. Embora fosse abundante do lado de fora.
Três dias depois foi internado. Passou dez dias no CTI. Foi intubado. Respirava com ajuda de aparelhos. O diagnóstico não foi outro senão a tal covid. Que o levou ao óbito um mês depois.
Juquinha veio a falecer. Ninguém ficou sabendo. Foi sepultado como indigente numa cova rasa. Seu nome nem apareceu naquela plaquinha identificativa de quem ali foi enterrado. Mais um óbito nas estatísticas dos falecidos pela covid. Muito menos foi noticiado pela televisão.
Assim acontece todos os dias. Só se noticiam os óbitos dos tidos famosos. Os anônimos nem direito a isso têm.