O persistente

Tentar, retentar, persistir, ir em busca de um ideal, não desistir do intento, correr atrás de um sonho, mesmo que ele se transforme em pesadelo, é um modus vivendis o qual sigo continuamente, desde quando aprendi a ser gente.

Mesmo que as coisas não saiam do nosso agrado faço de conta que deu tudo certo. Errando é que se aprende. Mesmo que aquele caminho não seja o de nossa preferência.

Assim vou seguindo pelas estradas da vida. Equivocando-me de quando em quando. Mas retrocedo quando percebo o logro.

Foi este o legado que me deixou meu saudoso pai. E procuro segui-lo segundo o que ele me ensinou. Se por acaso persevero no erro peço que me desculpem. E agradeço da mesma maneira quando alguém me ensina o caminho certo.

Conheço um senhor, nascido pertinho de onde tenho uma rocinha, no município de Ijaci, Seu Iraci, desconheço-lhe o sobrenome, que, desde quando o vi pela primeira vez aprendi o que deve ser persistente.

Ele foi capataz de uma enorme fazenda de café. Aprendeu a cuidar das lavouras pelos antecessores. Sabia como poucos identificar as pragas do cafezal. Quando os grãos de café estavam no ponto de serem colhidos. Sabia espalhar os panos por baixo na hora certa. Era o feitor, não o malfeitor, de uma turma de panhadores. Era considerado gente acima do bem e do mal. Gentil, quando a hora indicava. Exigente quando a ocasião mandava.

Seu Iraci, de uma hora pra outra, acabou se cansando da lida. Comprou, com as economias de uma vida inteira, um pedacinho de terra nas vizinhanças daquela fazenda.

Resolveu dar uma guinada em sua vida. Mudou de ramo. Passou a ser cuidador de vacas e suas crias.

Comprou meia dúzia de vacas mestiças. Com elas começou o seu plantel.

No começo tirava menos de dez litros de leite de cada uma delas. Foi aumentando, fazendo crescer seu rebanho, até contar nos dedos mais de duzentas reses.

No começo, quando plantou a sua primeira roça de milho a chuva não veio. Os pezinhos de milho não cresceram. As espigas ficaram chochinhas. Não mediam sequer dez centímetros.

Mesmo assim Seu Iraci não desistiu. No ano seguinte repetiu a planta. Mais uma vez tudo foi pelos ares. Não se via chuva desde o ano passado. Que foi um ano azarado para os agricultores da região.

Perseverar era com ele mesmo. Nunca desistiu do seu intento. Repetiu a planta não sei quantas vezes. Até naquele ano, quando a chuva caiu na hora certa. E a roça de milho granou como nunca se viu dantes.

A vacada embarrigou. As crias foram nascendo. Cada bezerrão que dava gosto. Pena que o preço do leite despencou como um foguete. Em contrapartida aos insumos que foram às alturas.

A renda do leite mal dava para as despesas. Mesmo assim Seu Iraci não desanimou. Continuou na lida como se tudo corresse da melhor forma possível. Era um persistente que não se apoquentava com as desgraças que infelizmente aconteciam.

No ano seguinte, esse quando acontece a pandemia, as coisas iam de mal a pior. A seca perversa fazia poeira na estrada. Mais uma vez a roça de milho secou.

Foi quando me encontrei com Seu Iraci. Ele estava assentado à beira da estrada por onde iria passar.

Parei um cadiquinho para  saber as novidades.

“ Como vão as coisas amigo velho? E as vacas? Estão dando leite como dantes? E o preço pago pelo laticínio? Está de bom tamanho? E a roça de milho? É suficiente para encher o silo”?

Foi quando ele me respondeu, com um leve sorriso a enfeitar-lhe a face: “ quer mesmo saber? A seca anda destemperada. Os açudes estão com o fundo rachado. Quase não se tem água pra beber. O preço do leite vai de mal a pior. A pastaria anda seca. O gado mal vai pro pasto. Fica beirando o curral, à espera do trato. Mas, se pensa que vou desistir se engana. No ano que vem as coisas vão melhorar. Não desanimo por qualquer coisa. Deixo a vida me levar”.

Dali saí mais animado. Quem sabe no ano próximo em verdade as coisas melhoram? Melhor deixar a vida nos levar.

 

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